Desde janeiro deste ano, as chaminés das siderúrgicas que exportam para a União Europeia (UE) passaram a receber uma espécie de “código de barras”: cada carga embarcada tem de informar quanto carbono foi emitido para produzi-la. É o que prevê o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM, na sigla em inglês), que transfere o custo desse carbono ao importador europeu. A conta, porém, só chega em 2027, quando ele passa a comprar os certificados. Minas Gerais, um dos principais pólos siderúrgicos do país, pode lucrar com um aço mais limpo, mas ainda não está claro quem vai pagar por ele.

Minas concentra o carvão vegetal do país e tem uma matriz elétrica majoritariamente renovável. Mas o CBAM não paga pela descarbonização do metal, ele cobra de quem emite mais. A vantagem do exportador mineiro está em pagar menos que concorrentes mais poluentes, não em vender mais caro, e seu tamanho depende de que as siderúrgicas consigam comprovar suas emissões e de mercados que aceitem pagar suas emissões e de mercados que aceitem pagar pelo "prêmio verde", que até agora só apareceu em contratos pontuais na Europa.

Quanto vale a descarbonização do aço

A UE já cobra carbono de parte das suas indústrias por meio do EU ETS, sistema de comércio de licenças de emissão em que as empresas precisam comprar ou receber permissões para emitir gases de efeito estufa, dentro de um teto que diminui gradualmente. O CBAM estende essa lógica às importações, para evitar a chamada "fuga de carbono", ou seja, que um produto fabricado fora do bloco chegue à UE mais barato só porque o carbono emitido em sua produção não foi precificado na origem.

O importador europeu autorizado declara as emissões embutidas nos produtos cobertos, como o aço, e pode abater o preço de carbono já pago no país exportador. Como o Brasil ainda não possui um preço de carbono efetivamente cobrado na produção, o custo do CBAM recai integralmente sobre o importador europeu. Na prática, esse valor pode ser repassado ao exportador brasileiro por meio de descontos no preço, revisões contratuais ou exigências de dados mais precisos sobre emissões.

Para o exportador mineiro, a vantagem está em provar o que emite. Ele precisa medir, documentar e comprovar as emissões com dados verificados por um auditor independente acreditado pela União Europeia. Sem esses dados, o importador deverá recorrer aos valores-padrão definidos pela UE, que recebem um acréscimo progressivo e podem superar as emissões reais do produto, mesmo quando ele for mais limpo. No caso do aço, esse acréscimo sobe de 10% em 2026 para 20% em 2027 e 30% a partir de 2028.

Por que o aço é considerado ambientalmente sujo?

O aço é uma liga de ferro e carbono cuja fabricação tradicional responde por cerca de 8% das emissões de CO₂ do sistema energético global, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA). A produção ocorre em três etapas: extração e preparo do minério, remoção do oxigênio e transformação em aço.

Na rota tradicional, o problema está nos altos-fornos, onde, na segunda etapa, o minério de ferro é desoxigenado com carvão mineral, insumo rico em carbono. O carvão retira o oxigênio do minério e o libera na forma de CO₂. Segundo a IEA, esse processo emite 2,3 toneladas do gás por tonelada de aço produzido. Por isso, as alternativas avançam em frentes tecnológicas distintas, cada uma com seus desafios.

Representantes do setor ouvidos por esta reportagem explicam que a principal aposta de longo prazo é a redução direta com hidrogênio (H₂), capaz de substituir o carvão e emitir vapor de água, em vez de CO₂, na etapa de redução. O processo ocorre em um reator e exige pelotas, pequenas esferas de minério aglomerado, com mais de 67% de ferro. Essa classificação é conhecida como grau DR (de direct reduction, redução direta, em inglês). O resultado é o ferro-esponja, que pode ser prensado em briquetes (HBI, na sigla em inglês) e segue para fusão em forno elétrico a arco, onde vira aço.

Projeções do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica (DIW Berlin) indicam que essa rota pode cortar de 90% a 95% das emissões em relação à siderurgia convencional, desde que o hidrogênio seja produzido com eletricidade renovável e o forno elétrico também use energia de baixo carbono.

O método, porém, exige muita energia limpa, infraestrutura para produzir e transportar o gás e plantas novas, o que encarece o investimento frente à adaptação de usinas existentes. Por isso, muitos projetos começam com gás natural, que emite menos que o carvão, e preveem migrar para o hidrogênio.

Outra alternativa dentro das usinas é trocar o carvão mineral pelo vegetal. No Brasil, a substituição já acontece e, de acordo com o Instituto Aço Brasil, no relatório "Produção de aço bruto via rota integrada de carvão vegetal", cerca de 11% do aço bruto do país foi fabricado em altos-fornos a carvão vegetal em 2024. No mesmo ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país produziu 6,7 milhões de toneladas de carvão vegetal, enquanto Minas Gerais respondeu por 83,3% do total. No estado, o insumo é feito majoritariamente a partir do eucalipto.

O ganho climático, porém, depende da rastreabilidade da madeira, da reposição florestal comprovada e da ausência de conversão de vegetação nativa. Sem isso, o impacto apenas se desloca para a cadeia do carvão vegetal, já associada a desmatamento ilegal em fiscalizações do Ibama e a trabalho análogo à escravidão em operações do Grupo Móvel de Fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Há ainda a sucata de veículos e eletrodomésticos, estruturas de prédios demolidos e resíduos da própria indústria. Derretida em forno elétrico a arco, o mesmo da redução direta, ela dispensa a extração de minério e a etapa de redução com carvão. Segundo a Associação Mundial da Indústria Siderúrgica, cada tonelada de aço reaproveitado evita a emissão de 1,5 tonelada de CO₂ e o consumo de 1,4 tonelada de minério de ferro.

Matriz limpa e carvão vegetal dão ao país ponto de partida favorável

O Brasil parte de uma posição relativamente confortável. A matriz elétrica, majoritariamente limpa, atingiu 88,2% de fontes renováveis em 2024, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o que favorece os fornos elétricos e a reciclagem de sucata. Já nas usinas integradas, que produzem aço a partir do minério em altos-fornos e respondem por 75,2% da produção bruta do país, o carvão vegetal, forte em Minas, tende a emitir menos que o coque, carvão mineral processado em alta temperatura, desde que a madeira tenha origem sustentável.

O desafio está no coque, que ainda está por trás de perto de dois terços do aço nacional e concentra o principal obstáculo à descarbonização da siderurgia brasileira.

O elo das mineradoras

O minério usado na redução direta precisa ser de teor mais alto, o grau DR, acima de 67% de ferro. Segundo a Vale, ele é extraído predominantemente em Carajás, no Pará. O Sumário Mineral 2025, da Agência Nacional de Mineração (ANM), mostra que o Brasil produziu 447,2 milhões de toneladas de ferro beneficiado (tratado para aumentar o teor) em 2024, com teor médio de 62,2%, abaixo do exigido pelo grau DR. Minas Gerais respondeu por 57% do total e o Pará, por 39,7%, mas os dados não permitem afirmar que uma parcela relevante do processamento seja desse tipo. Em Minas, os investimentos da Vale se concentram em processamento, filtragem e aglomeração, etapas que preparam o minério para virar pelotas e briquetes.

Na Vale, 98% da pegada de carbono está no chamado Escopo 3, que reúne as emissões indiretas da cadeia de valor. O principal componente é o processamento do minério pelas siderúrgicas clientes, sobretudo em altos-fornos a carvão. À reportagem, a Vale informou que busca reduzir em 15% as emissões líquidas de Escopo 3 até 2035, em relação a 2018, e mantém acordos de descarbonização com mais de 50 clientes.

O briquete de minério de ferro é outra aposta recente da mineradora, desenvolvida ao longo de cerca de duas décadas de pesquisa. Aglomerado a frio, ele é produzido em Vitória (ES) e terá uma unidade em Vargem Grande, em Minas Gerais. Segundo a empresa, o produto dispensa a sinterização, etapa de preparo do minério intensiva em carbono, e pode reduzir em até 10% as emissões dos clientes siderúrgicos.

Prêmio verde ainda é exceção

O prêmio verde ainda não apresenta evidências de estar consolidado no mercado, mas há sinais de estímulo na cadeia automotiva, sobretudo na Europa. Em junho de 2023, a Mercedes-Benz assinou com a sueca Stegra um acordo para comprar cerca de 50 mil toneladas anuais de aço de baixo carbono. A produção, porém, só deve começar em 2027, e a viabilidade do projeto ainda depende da conclusão do financiamento e da operação em escala.

O Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA), instituto de análise de energia e finanças, alerta que o minério de grau DR representa uma fatia estreita da oferta global, o que pode gerar déficit nas próximas décadas e atrasar a transição de países de industrialização acelerada, como a Índia.

Os prazos também escorregam. Foi o que aconteceu com a Rio Tinto, que pausou os testes da planta-piloto BioIron, que usaria biomassa e energia de micro-ondas, após identificar desafios técnicos e de projeto. Em paralelo, a mineradora estuda com a Calix uma planta demonstrativa de ferro reduzido por hidrogênio, condicionada à decisão de investimento e à construção. Como a maioria das projeções vem das próprias mineradoras, analistas e fontes representantes do setor recomendam cruzar as metas com referências independentes, como a IEA.

Por ora, o efeito financeiro é pequeno. Em 2026 e 2027, o importador paga por apenas 2,5% e 5% das emissões incorporadas nos produtos, respectivamente. A cobrança avança gradualmente e só atinge 100% em 2034.