A Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) confirmou que a venda de sua divisão de cimentos está na fase final de negociação e descartou a possibilidade de abrir o capital da subsidiária como alternativa à alienação do negócio. O posicionamento, divulgado na terça-feira (20), ocorre em meio à estratégia de reorganização financeira do grupo, que busca reduzir seu endividamento por meio da venda de ativos.

A operação pode movimentar entre R$ 12 bilhões e R$ 15 bilhões, segundo estimativas divulgadas pela imprensa econômica. A CSN, entretanto, não confirmou valores nem anunciou a escolha de um comprador.

Em comunicado ao mercado, a companhia contestou informações de que estaria enfrentando dificuldades para concluir a negociação e reafirmou que mantém um processo competitivo para a venda da CSN Cimentos.

A transação tem implicações para Minas Gerais, onde a empresa mantém operações industriais e atividades de extração de calcário, especialmente em Arcos, no Centro-Oeste do estado. Até o momento, não foram anunciadas mudanças na produção, no quadro de funcionários ou na estrutura operacional dessas unidades em decorrência da possível venda.

Plano para reduzir dívida bilionária

A alienação da CSN Cimentos é considerada uma das principais operações do programa de desinvestimentos do grupo, que encerrou o segundo trimestre de 2026 com dívida líquida ajustada de R$ 42,1 bilhões.

A estratégia ganhou impulso após a chegada de Fabio Schvartsman à presidência executiva, em setembro. O executivo assumiu o cargo anteriormente ocupado por Benjamin Steinbruch, que passou a presidir o Conselho de Administração.

Desde então, Schvartsman tem conduzido as negociações para a venda da cimenteira, em uma tentativa de acelerar a reorganização financeira e melhorar a estrutura de capital da companhia.

O movimento não se limita ao segmento de cimento. Em outubro, a CSN também anunciou um acordo preliminar para vender a siderúrgica Stahlwerk Thüringen, na Alemanha, ao grupo espanhol Megasa, por aproximadamente € 550 milhões. A empresa também avalia alternativas para outros ativos de seu portfólio.

As operações integram uma estratégia mais ampla de redução da alavancagem financeira e concentração de recursos em negócios considerados prioritários.

A venda da cimenteira, caso seja concluída, poderá liberar recursos para amortização de dívidas e reduzir a pressão financeira sobre o grupo.

Operações em Minas entram no centro da negociação

A CSN Cimentos possui uma estrutura industrial que inclui fábricas, unidades de moagem, centros de distribuição e reservas minerais em diferentes regiões do Brasil.

Em Minas Gerais, uma das principais operações está localizada em Arcos, onde a companhia mantém uma fábrica de cimento e uma mina de calcário.

A unidade industrial começou a operar em 2015 e integra a cadeia de produção de clínquer, material intermediário essencial para a fabricação de cimento.

Segundo informações institucionais da própria CSN, a mina de Arcos fornece o calcário utilizado nesse processo. O mineral passa por etapas de britagem, moagem e preparação antes de ser submetido a altas temperaturas para a produção do clínquer.

A estrutura também está ligada ao modelo de integração industrial desenvolvido pela companhia. Parte da produção de cimento utiliza escória de alto-forno gerada pela atividade siderúrgica da CSN, combinando insumos provenientes de diferentes negócios do grupo.

Essa integração é um dos pontos que poderão exigir novos arranjos comerciais após uma eventual mudança de controle. Caso a CSN Cimentos passe a pertencer a outro grupo econômico, contratos de fornecimento de matérias-primas, logística e serviços compartilhados poderão precisar de revisão ou manutenção por meio de acordos específicos.

Não há, entretanto, confirmação de que esses contratos serão alterados.

O que muda para as unidades mineiras?

A venda integral da CSN Cimentos não significa, necessariamente, interrupção de atividades ou redução de investimentos em Minas Gerais.

Em operações dessa natureza, o novo controlador pode optar pela continuidade das unidades existentes, pela ampliação da capacidade produtiva ou por ajustes na estrutura administrativa e comercial.

A definição dependerá do comprador, das condições estabelecidas no contrato e da estratégia industrial adotada após a conclusão da transação.

Para Arcos, município que concentra atividades ligadas à extração de calcário e à produção de cimento, uma eventual mudança de controle poderá ter repercussões sobre fornecedores, transportadoras, prestadores de serviços e investimentos industriais.

Outro ponto relevante é a situação dos direitos minerários associados à produção de cimento. A transferência indireta de controle societário não equivale, por si só, à transferência individual de cada título minerário, mas eventuais reorganizações de ativos e titularidades deverão observar as exigências regulatórias aplicáveis.

Até agora, a CSN não divulgou um plano específico para as unidades de Minas Gerais após a venda. Também não há anúncio de fechamento de instalações ou demissões vinculadas à negociação.

Por isso, ainda não é possível determinar se a eventual troca de controlador resultará em expansão, manutenção ou reestruturação das operações mineiras.

Disputa envolve grupos brasileiros e estrangeiros

Entre os interessados apontados pela imprensa econômica estão a chinesa Huaxin Cement e um consórcio formado pela Votorantim Cimentos e pela italiana Cementir. A brasileira Polimix também foi citada em etapas anteriores do processo.

Em agosto, a CSN confirmou oficialmente o recebimento de propostas vinculantes pela subsidiária, sem divulgar os valores oferecidos nem a identidade dos participantes.

Em setembro, a Cementir informou que havia apresentado uma proposta em conjunto com a Votorantim Cimentos, mas que a oferta expirou sem aceitação e sem a assinatura de um contrato definitivo.

As negociações continuaram, e informações divulgadas em outubro indicam que a CSN poderá conceder exclusividade a um interessado para avançar na elaboração do contrato. A companhia, porém, ainda não confirmou oficialmente essa decisão.

A identidade do comprador também poderá influenciar a análise concorrencial. Uma aquisição por um grupo com participação expressiva no mercado brasileiro de cimento tende a exigir avaliação dos efeitos sobre a concentração do setor pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

CSN mantém mineração de ferro como negócio estratégico

A reorganização financeira ocorre em um momento em que a CSN busca equilibrar sua atuação nos segmentos de siderurgia, mineração, cimento, energia e logística.

Na mineração de ferro, o grupo opera por meio da CSN Mineração, que possui atividades relevantes em Minas Gerais, especialmente na região de Congonhas.

A companhia também mantém participação em estruturas ferroviárias e portuárias utilizadas para o transporte e a exportação de minério.

A possível venda da CSN Cimentos não envolve, conforme as informações divulgadas até agora, a alienação da CSN Mineração. Os dois negócios possuem estruturas societárias e operacionais distintas, embora façam parte do mesmo grupo econômico.

A redução do endividamento da controladora poderá ampliar sua flexibilidade financeira, mas ainda não há indicação oficial de que os recursos obtidos com a cimenteira serão direcionados a investimentos específicos em mineração de ferro.