Faltam nove dias para o segundo turno das eleições e o governo Lula parece ter descoberto um novo esporte olímpico: distribuir bondades. Em poucos dias, anunciou o Prospera MEI, com renegociação e possibilidade de perdão de dívidas, prometeu um Pix de até R$ 5 mil para microempreendedores, lançou a ideia de um Pé-de-Meia universitário e ainda acenou com ônibus gratuitos nos fins de semana. Algumas medidas dependem de aprovação, outras só começariam em 2027. Mas o que importa é o impacto da propaganda. Dá para quase cravar que pouca conta é feita para cada anúncio.

Bolsonaro também não resistiu à tentação em 2022. Elevou o Auxílio Brasil para R$ 600, antecipou pagamentos na reta final, criou benefícios para caminhoneiros e taxistas e abriu as portas para o consignado dos beneficiários do programa. A Emenda Constitucional 123 autorizou R$ 41,25 bilhões em despesas extraordinárias, dos quais R$ 36,36 bilhões foram efetivamente executados naquele ano. É bom lembrar disso para não transformar a crítica em torcida organizada. Na política brasileira, a distribuição de bondades em época de eleição está longe de ser uma exclusividade partidária. Muda o governo, muda o discurso, mas a conta continua chegando ao mesmo endereço.

Mas o pacote de Lula em 2026 chama a atenção pela dimensão e pela variedade dos instrumentos. A cada pesquisa, uma nova medida. Ultrapassou a linha do bom senso. Levantamento divulgado nesta sexta-feira, atribuído à Instituição Fiscal Independente, aponta R$ 298,4 bilhões em medidas econômicas mobilizadas ao longo do ano, incluindo crédito, instrumentos financeiros e impactos fiscais. Não são R$ 298,4 bilhões efetivamente gastos pelo Tesouro, distinção indispensável para uma comparação séria. Ainda assim, é uma cifra que exige explicações sobre custos, contrapartidas e compromissos futuros.

Nos dias de hoje não tem como falar em política sem falar do STF. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal declarou parcialmente inconstitucional a emenda que sustentou benefícios eleitorais de Bolsonaro em 2022, invocando a igualdade de oportunidades entre candidatos e a necessidade de evitar situações semelhantes. Pois bem, os critérios estabelecidos naquela decisão estão sendo considerados diante dos anúncios de Lula? Alguém ouviu um pio? Há diferenças jurídicas que justifiquem outro tratamento? O eleitor merece conhecer a resposta. Se bem que ele já sabe. Constituição não deveria mudar de interpretação conforme o inquilino do Palácio do Planalto. Aliás, neste país não deveria muita coisa. Sigamos no raciocínio.

E que fique bem claro: não sou contra programas sociais. Quem precisa de auxílio deve recebê-lo. O estudante de baixa renda merece oportunidades, assim como o pequeno empreendedor endividado merece condições para recomeçar. O problema é a falta de planejamento, a concentração no período eleitoral sem tempo para discussões e contas orçamentária, e a nítida vantagem que o dono momentâneo da faixa tem em relação aos seus oponentes. É impressionante a facilidade com que a política encontra soluções para anunciar benefícios imediatos e a dificuldade de construir políticas duradouras para quem investe, produz, emprega e paga impostos. Só que tem um pequeno detalhe: alguém precisa gerar a riqueza que financia tudo isso. Dinheiro público não brota em árvore, tampouco nasce nas urnas.

Tirando o agronegócio que tem, com muita justiça, o dinheiro carimbado para o Plano Safra (em 2026/27 prevê R$ 525,1 bilhões em crédito), o restante do mercado assiste com espanto estes recursos voando pela janela do Planalto e não vê nada pousando no seu terreiro. É o caso da Mineração e da Siderurgia.

Onde está uma agenda nacional capaz de atender às necessidades das pequenas, médias e grandes empresas do setor? Existem linhas gerais de financiamento e programas voltados a minerais críticos, mas isso não resolve automaticamente os gargalos da mineração de ferro e de outros segmentos tradicionais. Estamos falando de renovar máquinas e equipamentos, modernizar plantas de beneficiamento, recuperar finos de minério, reduzir consumo de água e energia, melhorar ferrovias e estradas, investir em segurança e tecnologia e dar previsibilidade ao licenciamento ambiental. Não estou propondo distribuir dinheiro a donos de mineradoras. Estou falando de criar condições para investimentos produtivos que gerem empregos, renda, arrecadação e desenvolvimento. E que no final das contas, ajude a pagar esta gastança desenfreada em tempos de eleições.

Mais uma vez, onde estão as entidades representativas da mineração nesta temporada eleitoral? Não basta divulgar uma nota aqui, participar de um seminário ali ou reclamar das dificuldades entre uma eleição e outra. Quais compromissos concretos estão sendo cobrados dos candidatos? Qual é a pauta comum apresentada à sociedade? Quem está colocando a modernização da mineração no centro do debate político? O setor tem importância econômica, gera milhares de empregos e sustenta municípios inteiros, mas ainda não conseguiu transformar esse peso em uma agenda pública com a visibilidade alcançada pelo agronegócio. Parte da responsabilidade está na própria mineração, que continua enfrentando dificuldades para comunicar seu valor à sociedade.

O agro é pop, o agro é tech, o agro é tudo, como repete a conhecida campanha publicitária. E a mineração? Parece que continua sendo lembrada quando há uma barragem, um conflito ou uma crise, mas quase nunca quando se discutem políticas para ampliar a produção, a competitividade e o emprego. O setor passa por um momento delicado com o aumento do frete marítimo, e várias mineradoras pararam a sua produção. Outros tantos empregas estão sendo ceifados. Onde está uma política pública para garantir estes empregos em tempos difíceis? Talvez esteja na hora de o setor trocar parte das lamentações por uma boa dose de articulação política e comunicação.

Afinal, em época de eleição, Brasília encontra dinheiro, criatividade e urgência para quase tudo. Só não parece encontrar a mesma disposição para discutir de onde virá a riqueza que vai pagar a fatura. E vamos empurrando a conta com a barriga na esperança de que responsabilidade encontre a justiça social com desenvolvimento.