O candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, colocou as terras raras entre as prioridades que pretende estimular em Minas Gerais. Durante entrevista à Inter TV dos Vales, em Governador Valadares, nesta quinta-feira (24), ele afirmou que, em um eventual governo, pretende investir na “expansão e atualização” do laboratório de terras raras existente na Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), além de qualificar profissionais para atuar no setor.

A proposta mira uma estrutura que já está em operação e que, atualmente, participa de um dos principais projetos brasileiros para desenvolver uma cadeia nacional de ímãs permanentes de terras raras. O CIT SENAI ITR, em Lagoa Santa, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, reúne infraestrutura para processamento mineral, produção de ligas especiais e fabricação de ímãs permanentes. A unidade também conta com equipamentos para fusão, sinterização e caracterização dos materiais.

O centro é um dos pilares do Projeto MagBras, aprovado pelo Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover), que recebeu R$ 73,3 milhões para desenvolver uma cadeia nacional de ímãs permanentes de neodímio, ferro e boro (NdFeB), abrangendo etapas que vão da extração e beneficiamento mineral à fabricação e reciclagem dos ímãs.

A declaração de Flávio, portanto, abre uma questão objetiva para o setor mineral: o que exatamente o candidato pretende ampliar ou modernizar em uma estrutura que já possui infraestrutura para produção de ímãs e que integra um projeto financiado pelo governo federal?

Cadeia já está sendo testada com matéria-prima brasileira

O CIT SENAI ITR não está apenas estruturado fisicamente. Em 2026, a unidade começou a receber matéria-prima de origem brasileira para testar as diferentes etapas da cadeia.

Em fevereiro, o centro recebeu 20 quilos de carbonato de terras raras produzido a partir de matéria-prima extraída no Brasil pela Meteoric. Segundo a FIEMG, o material permite testar, em escala-piloto, a rota tecnológica que vai da matéria-prima mineral até a fabricação de ímãs de NdFeB.

Em agosto, a Viridis entregou ao CIT SENAI ITR outros 5 quilos de carbonato misto de terras raras produzido em Poços de Caldas. O material seguirá para o CETEM, no Rio de Janeiro, para separação dos óxidos; depois, para o IPT/USP, em São Paulo, onde será produzida a liga metálica; e, posteriormente, retornará a Lagoa Santa para testes de fabricação de ímãs.

O movimento mostra que diferentes elos da cadeia já estão sendo articulados entre Minas Gerais e instituições de outros Estados. O desafio passa a ser ampliar essa estrutura e transformar os testes e a produção-piloto em uma cadeia industrial em escala comercial.

O que ainda falta?

Na entrevista, Flávio Bolsonaro não detalhou quanto pretende investir na estrutura, quais equipamentos seriam adquiridos ou modernizados, qual capacidade adicional pretende alcançar nem como seria financiada a expansão. Também não apresentou detalhes sobre o programa de qualificação profissional citado.

A campanha também não esclareceu se a proposta consiste em ampliar a capacidade do CIT SENAI ITR, incorporar novas etapas da cadeia — como separação e processamento dos elementos — ou ampliar a formação de mão de obra especializada.

A resposta é relevante porque o laboratório já atua em etapas que vão do processamento mineral à fabricação de ímãs. A própria FIEMG informa que a unidade foi estruturada para produção-piloto e escala industrial.

A proposta também ocorre em um momento de maior atenção do governo federal aos minerais críticos e estratégicos e à necessidade de agregar valor à produção mineral brasileira.

Para Minas Gerais, a questão colocada pela declaração de Flávio Bolsonaro vai além da existência de terras raras no subsolo: envolve quanto ainda é necessário investir em tecnologia, infraestrutura, pesquisa, formação profissional e escala industrial para que o Estado avance da produção mineral para a fabricação de componentes de maior valor agregado.