O Brasil vive um dos momentos de maior visibilidade de sua história recente no setor de terras raras. Novas ocorrências, sondagens, aquisições e projetos são anunciados com frequência, enquanto empresas estrangeiras ampliam sua presença em diferentes regiões do país. O movimento confirma a importância da geologia brasileira, mas também expõe uma questão que precisa ser tratada com mais clareza. Encontrar mineral não é o mesmo que colocar uma mina em operação e muito menos construir uma cadeia industrial.
Hoje, a Serra Verde, em Minaçu, Goiás, é a única operação de terras raras em produção comercial no Brasil. A produção começou em 2024 e a empresa segue em processo de otimização e expansão. Ao mesmo tempo, outros projetos avançam em estudos, licenciamento, testes metalúrgicos e captação de recursos. Esse cenário mostra que o país possui uma carteira relevante de oportunidades, mas ainda precisa transformar potencial em projetos tecnicamente comprovados, economicamente viáveis e capazes de chegar à indústria.
Para David Moreira, presidente do Instituto Nacional de Terras Raras, essa diferença é central para entender o momento atual. "O Brasil já mostrou ao mundo que tem terras raras. Agora precisa mostrar que sabe o que fazer com elas. Ocorrência mineral é o começo de uma jornada. Entre uma amostra positiva e uma operação industrial existe um caminho longo, caro e tecnicamente complexo."
Segundo Moreira, parte da dificuldade do investidor brasileiro em enxergar o setor está justamente na ausência de uma visão completa do ciclo econômico. Um investidor precisa saber qual minério existe, como será processado, qual recuperação pode ser obtida, qual será o custo de produção, quem comprará o produto e onde está a margem do negócio. Sem essas respostas, o capital encontra dificuldade para precificar o risco.
O Brasil possui mercado financeiro, empresas de mineração, fundos e grupos industriais com capacidade de investimento. O desafio é apresentar projetos cuja lógica econômica possa ser acompanhada do início ao fim. Em terras raras, isso significa ir além da prospecção e conectar caracterização mineralógica, engenharia, recuperação metalúrgica, licenciamento, mineração, concentração, separação, produção de óxidos, metais, ligas e componentes como os ímãs permanentes.
É justamente nas etapas posteriores à mineração que se concentra uma parte importante do valor tecnológico da cadeia. Estudos técnicos recentes do próprio governo federal reconhecem que o Brasil ainda precisa avançar em separação de óxidos, produção de metais, ligas e ímãs. A existência de recursos minerais, portanto, não significa que o país já domine a cadeia de valor.
Moreira avalia que o aumento do número de empresas de exploração, joint ventures e transações envolvendo ativos brasileiros deve ser observado com maturidade. "Capital estrangeiro é importante e deve ser bem recebido. Pesquisa mineral também é indispensável. O problema aparece quando começamos a tratar uma ocorrência ou uma valorização de ativo como se fosse sinônimo de uma nova mina ou de uma nova indústria. Precisamos separar cada etapa e medir o que efetivamente está sendo construído no país."
Na avaliação do Instituto, o fortalecimento dos centros de pesquisa é uma das condições para reduzir essa distância. O Brasil possui universidades, laboratórios e pesquisadores com conhecimento acumulado em geologia, beneficiamento, química, materiais e processos. O desafio é conectar essas competências e transformar conhecimento isolado em rotas tecnológicas que possam ser testadas, reproduzidas e levadas à escala industrial.
Essa integração também pode ajudar a aproximar o capital brasileiro do setor. Quanto maior a capacidade de demonstrar recuperação, consumo de reagentes, desempenho de planta piloto, estabilidade de processo, qualidade de produto e mercado comprador, menor é a incerteza de quem precisa financiar uma operação. Pesquisa, nesse caso, deixa de ser apenas produção acadêmica e passa a funcionar como instrumento de redução de risco econômico.
Para Moreira, o país precisa evitar uma corrida baseada apenas na quantidade de anúncios. "Não precisamos de menos prospecção. Precisamos transformar prospecção em projeto, projeto em mina e mina em indústria. Isso só acontece quando o conhecimento acompanha toda a cadeia."
A discussão ganha importância porque as terras raras estão ligadas a setores como mobilidade elétrica, energia, eletrônica, defesa, aeroespacial e equipamentos de alta tecnologia. O valor estratégico desses elementos não está apenas na jazida. Está na capacidade de separar, transformar e aplicar cada elemento em produtos industriais.
Nesse contexto, o Instituto Nacional de Terras Raras defende uma abordagem integrada para o setor, reunindo geologia, pesquisa, mineração, processamento e indústria. A proposta é que projetos estratégicos não sejam vistos de forma fragmentada, como iniciativas isoladas de uma empresa, de um laboratório ou de um pesquisador.
"O projeto não pode ser de um pesquisador, de uma universidade ou de uma empresa. O projeto precisa ser do Brasil. Quando conseguirmos conectar conhecimento, capital e indústria, o investidor brasileiro começará a enxergar com mais clareza onde está o valor e o país deixará de discutir apenas o tamanho de suas reservas para discutir o tamanho de sua indústria."
A próxima etapa das terras raras brasileiras, portanto, não será definida apenas por novas descobertas. Será definida pela capacidade do país de provar quais projetos ficam de pé, quais tecnologias funcionam e quanto desse potencial mineral consegue permanecer no Brasil na forma de conhecimento, emprego, tecnologia e produto industrial.
David Moreira - Presidente do Instituto Nacional de Terras Raras





