O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou financiamento de R$ 77,5 milhões para a Viridis Mineração implantar um centro de pesquisa e processamento de terras raras em Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais.

Os recursos serão destinados ao Centro de Pesquisa e Processamento de Terras Raras (CPTR), estrutura que deverá produzir Carbonato Misto de Terras Raras em escala piloto e desenvolver tecnologias específicas para o processamento das argilas iônicas encontradas na região.

O financiamento será feito por meio do programa BNDES Mais Inovação e terá prazo de 16 anos, com taxa indicativa de 4,8% ao ano. A Viridis está entre as empresas selecionadas na chamada pública lançada pelo BNDES e pela Finep para apoiar projetos relacionados à transformação de minerais estratégicos no Brasil.

O centro integra o desenvolvimento do Projeto Colossus, empreendimento de terras raras da Viridis no complexo alcalino de Poços de Caldas. Além da planta-piloto, a estrutura terá laboratórios destinados ao desenvolvimento e à otimização das rotas metalúrgicas utilizadas no processamento do minério.

A iniciativa ganha relevância em um momento em que o Brasil tenta avançar além da extração de minerais críticos e ampliar as etapas de processamento e transformação realizadas dentro do país.

Das argilas ao carbonato de terras raras

As terras raras formam um grupo de elementos utilizados em diferentes tecnologias de alta complexidade. Alguns deles são particularmente importantes para a fabricação de ímãs permanentes empregados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e outras aplicações industriais.

O depósito explorado pela Viridis em Poços de Caldas está associado às chamadas argilas iônicas, tipo de mineralização que também ocorre em importantes depósitos chineses e que ganhou relevância pela presença de elementos utilizados na fabricação desses ímãs.

No centro financiado pelo BNDES, a empresa pretende desenvolver e testar em escala piloto a rota que permitirá transformar o material extraído em Carbonato Misto de Terras Raras, conhecido pela sigla MREC.

A diferença entre essas etapas é importante para compreender o alcance do projeto.

O carbonato misto representa um avanço em relação à simples extração e concentração do minério, mas ainda não corresponde ao produto final da cadeia de terras raras. Depois dele, são necessárias etapas adicionais para separar e refinar individualmente os diferentes elementos e, posteriormente, produzir materiais como metais, ligas e ímãs permanentes.

São justamente essas etapas mais avançadas que concentram parte importante da tecnologia e do valor econômico da cadeia.

Projeto maior prevê investimento de US$ 449 milhões

O centro de pesquisa faz parte de um empreendimento significativamente maior que a Viridis pretende desenvolver em Poços de Caldas.

O estudo definitivo de viabilidade do Projeto Colossus estima investimento inicial de aproximadamente US$ 449 milhões para a implantação do empreendimento industrial. A previsão apresentada pela companhia é iniciar a construção da planta em 2027 e alcançar a primeira produção comercial no segundo semestre de 2028.

O estudo considera produção média próxima de 3 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras magnéticas contidos no produto, com destaque para neodímio e praseodímio, além de disprósio e térbio.

Esses números são projeções da própria Viridis e dependem do avanço das etapas de implantação do empreendimento, incluindo financiamento, contratos comerciais, licenciamento e decisão final de investimento.

Os R$ 77,5 milhões aprovados pelo BNDES não correspondem, portanto, ao financiamento da implantação de todo o Projeto Colossus. Os recursos anunciados agora são direcionados especificamente ao centro de pesquisa, à planta-piloto e ao desenvolvimento tecnológico associado ao processamento das terras raras.

Brasil tenta avançar no processamento

O investimento ocorre em meio a uma corrida internacional para diversificar as cadeias de fornecimento de minerais considerados estratégicos.

A disputa deixou de estar concentrada apenas no acesso às reservas minerais. Países consumidores também buscam alternativas para as etapas de processamento, separação e transformação, atualmente fortemente concentradas na China.

Para o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, o desenvolvimento dessas etapas no Brasil é estratégico para que o país não se limite ao papel de fornecedor de matéria-prima.

“O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, mas precisamos avançar na cadeia de valor, desenvolvendo tecnologia e capacidade industrial no país”, afirmou Mercadante ao anunciar o financiamento.

A estratégia também está por trás da chamada pública lançada pelo BNDES e pela Finep para transformação de minerais estratégicos. A iniciativa busca estimular projetos capazes de ampliar o processamento mineral, o desenvolvimento tecnológico e a produção de materiais de maior valor agregado no país.

Poços de Caldas ganha espaço na nova cadeia mineral

A implantação do centro reforça a posição de Poços de Caldas na corrida brasileira pelas terras raras.

A região vem atraindo projetos relacionados à exploração desses minerais justamente pela ocorrência de depósitos associados a argilas iônicas e pela presença de elementos utilizados na produção de ímãs permanentes.

Caso o Projeto Colossus avance conforme o cronograma apresentado pela Viridis, Minas Gerais poderá passar a abrigar não apenas a extração das terras raras, mas também uma etapa de processamento do material.

O desafio seguinte será avançar ainda mais na cadeia.

A produção de carbonato misto não elimina a necessidade de separação dos elementos, refino e fabricação de materiais magnéticos. A capacidade do Brasil de desenvolver essas etapas determinará quanto do valor econômico associado às terras raras permanecerá no país.

A questão ganhou ainda mais relevância com a aprovação, pelo Congresso, da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que busca estimular pesquisa, beneficiamento, transformação mineral e desenvolvimento tecnológico.

No caso de Poços de Caldas, os R$ 77,5 milhões aprovados pelo BNDES representam um primeiro movimento concreto nessa direção: usar recursos de inovação para desenvolver no Brasil a tecnologia necessária para processar um mineral que se tornou estratégico na disputa global por novas cadeias de energia e tecnologia.