O Brasil iniciou uma articulação com países vizinhos para tentar transformar a abundância de minerais estratégicos da América do Sul em uma cadeia produtiva mais integrada. Um acordo entre o Ministério de Minas e Energia (MME) e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF) vai estudar como reservas minerais, capacidade industrial e tecnologia existentes nos países do Mercosul e no Chile podem ser conectadas para ampliar a participação da região nas cadeias globais ligadas à transição energética.
A cooperação prevê aporte não reembolsável de US$ 120 mil do CAF e terá prazo inicial de 12 meses. Os recursos serão destinados à contratação de consultorias especializadas responsáveis pelos estudos técnicos.
A proposta vai além de identificar onde estão os minerais. O trabalho deverá mapear recursos, reservas, produção e projetos minerais dos países participantes, além de levantar capacidades existentes em pesquisa, desenvolvimento, inovação e processamento mineral. Também será projetada a demanda mundial por minerais estratégicos ligados à transição energética até 2050.
A partir desse diagnóstico, Brasil e países vizinhos pretendem identificar possibilidades de cooperação tecnológica, produtiva e regulatória e avaliar potenciais projetos conjuntos.
Da reserva à cadeia produtiva
A iniciativa ocorre em um momento de crescente disputa internacional pelo acesso a minerais utilizados em baterias, veículos elétricos, sistemas de armazenamento de energia e tecnologias de geração renovável.
A América do Sul reúne algumas das principais reservas mundiais de minerais associados a essas cadeias, mas o desafio colocado pelos governos é aumentar a parcela de processamento, transformação e desenvolvimento tecnológico realizada dentro da própria região.
“É preciso agregar valor, desenvolver tecnologia, atrair investimentos e construir cadeias produtivas mais integradas”, afirmou o representante do CAF no Brasil, Carlos Charme, ao anunciar a cooperação.
A estratégia considera que diferentes países podem oferecer partes complementares dessa cadeia. O estudo buscará identificar justamente onde existem essas sinergias e como capacidades hoje distribuídas pela região podem ser conectadas.
O trabalho deverá analisar inclusive aspectos técnicos, econômicos e logísticos dos potenciais projetos conjuntos. As iniciativas consideradas de maior potencial de impacto e investimento poderão integrar uma carteira preliminar de projetos estratégicos regionais.
Brasil no papel de articulador
A iniciativa nasceu de uma articulação brasileira no Subgrupo de Trabalho nº 15, de Mineração e Geologia, do Mercosul. O grupo definiu como prioridade a realização de um estudo regional sobre minerais estratégicos e a busca por maior cooperação entre os países.
Para o secretário Nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral substituto, Anderson Arruda, a estratégia passa por tratar a mineração como um ativo não apenas nacional.
“A mineração é hoje um ativo estratégico para o Brasil e para toda a América Latina. Por isso, olhamos para esse setor não apenas de forma individual, mas a partir de uma estratégia regional”, afirmou.
Ao final dos 12 meses, a expectativa é que o trabalho entregue uma base consolidada de informações sobre a região, um mapa de sinergias entre os países, recomendações para maior alinhamento regulatório e a carteira preliminar de projetos. Os resultados deverão passar ainda por oficinas técnicas com especialistas e representantes dos governos.
Valor dentro da América do Sul
A discussão sobre integração regional acontece enquanto o Brasil estrutura sua própria política para minerais críticos e estratégicos e tenta ampliar as etapas de beneficiamento e transformação realizadas no país.
O desafio regional é semelhante: evitar que a vantagem representada pelas reservas minerais resulte predominantemente na exportação de matérias-primas, sem que processamento, tecnologia e atividades de maior valor agregado acompanhem o crescimento da produção.
Um relatório publicado pelo próprio CAF em 2026 aponta oportunidades para diferentes países avançarem na cadeia de valor: Chile e Argentina discutem formas de ir além da exportação de lítio, enquanto o Brasil busca atrair investimentos para o refino de metais críticos. O documento ressalta, porém, que esse movimento depende de ambiente de investimento, mão de obra e transferência de tecnologia.
O estudo com Mercosul e Chile deverá indicar se parte dessa resposta pode vir de uma estratégia conjunta.
Por enquanto, não há definição sobre quais projetos serão desenvolvidos nem sobre como eventuais investimentos serão distribuídos entre os países. A primeira etapa será justamente identificar onde a integração faz sentido econômico, tecnológico e logístico.




