"A gente começou a ouvir uns burburinhos lá em dezembro. Fiquei desconfiado, mas não pensei que ia ser tão rápido. Até que esse ano o pessoal começou a ser mandado embora aos poucos. Eu fui trabalhar num dia normal, sem saber que seria o último na mineradora". O relato é de um ex-funcionário da Mosaic Fertilizantes, que pediu para não ser identificado, sobre a onda de demissões após o anúncio da paralisação das atividades minerárias da empresa.
Articulada entre águas termais, turismo e mineração, a economia de Araxá nunca dependeu de um único setor, ainda que a atividade mineral respondesse por uma fatia expressiva do PIB local. As fontes sulfurosas da cidade, conhecidas desde o século XIX, motivaram a construção do complexo hidrotermal do Barreiro, erguido nos anos 1940, mesma década em que a equipe do geólogo Djalma Guimarães, que buscava minerais radioativos para o antigo Conselho Nacional de Pesquisas, identificou as riquezas de fosfato e nióbio no subsolo.
A partir dos anos 1950, o setor industrial ganhou escala com a criação da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), em 1955, que explora a maior reserva de nióbio do mundo, no Barreiro, e fez do Brasil o maior produtor global. O fosfato, por sua vez, embora secundário ao nióbio, também teve importância à época. Confirmada a viabilidade da jazida de fosfato em 1965, o complexo industrial de Araxá foi inaugurado em 1978 e passou pelas mãos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Grupo Santista, da Petrofértil, da Bunge, da Vale e, mais recentemente, da Mosaic, em uma trajetória marcada por passivos ambientais, como a contaminação de lençóis freáticos comprovada em 1982.
Em abril deste ano, a Mosaic anunciou a hibernação das minas de Araxá e Patrocínio e a desmobilização do complexo mineroquímico de Araxá, o que, segundo a empresa, reduzirá a produção anual de fosfato no Brasil em cerca de 1 milhão de toneladas, equivalente a 27% de sua capacidade no país.
A decisão ocorreu em meio à escassez de enxofre, insumo essencial na produção de fertilizantes fosfatados. O problema já era apontado pela indústria desde 2025 e se agravou com a guerra entre Estados Unidos e Irã, iniciada no começo deste ano, que reduziu a circulação de navios pelo estreito de Ormuz, por onde passa cerca de metade da oferta mundial do insumo.Em julho, a retomada dos ataques, após um acordo temporário que havia reaberto parcialmente a passagem, voltou a pressionar o mercado. Segundo dados de importação do Comércio Exterior (Comex), a tonelada comprada pelo Brasil passou de aproximadamente US$200, na média do primeiro semestre de 2025, para mais de US$1.000 em junho de 2026.
Questionada pelo Minera Minas, a mineradora não confirmou o total de trabalhadores afetados nem os efeitos da medida para a economia de Araxá, mas informou em nota que "negociou com os sindicatos que representam seus funcionários, com o objetivo de avaliar alternativas para minimizar os impactos à força de trabalho decorrentes dessa paralisação temporária de suas operações no Brasil".
Já o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Extração Mineral, Químicas e de Fertilizantes de Araxá e Região (Sima) estimou em abril que cerca de 1.200 trabalhadores seriam afetados, sendo 600 diretos e um número semelhante de terceirizados. Em entrevista realizada na última quinta-feira (24), Vicente Magalhães, presidente do sindicato, estimou em aproximadamente 400 o número de funcionários já dispensados, mas reconheceu não ter o número final que a empresa pretende cortar.
O que sustenta a cidade até agora, de acordo com ele, é o pacote de rescisão. Quem é demitido recebe o equivalente a três salários, por acordo firmado. Em Tapira, no Alto Paranaíba, onde a Mosaic mantém outra mina de fosfato paralisada desde junho por causa da falta de enxofre, os trabalhadores em suspensão temporária de contrato recebem entre 85% e 90% do salário, somando o benefício do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) à complementação da empresa. Os terceirizados não estão cobertos por esse acordo. Segundo Magalhães, os sindicatos que os representam recorrem à Justiça para tentar receber indenizações da empresa terceirizada ou da mineradora.
O peso do minério que as estatísticas diluem
Para o sindicalista, mesmo que a extração de fosfato represente uma cifra inferior à do nióbio e os trabalhadores diretos estejam amparados, há outro problema que está fora da conta. "A gente vê que essa paralisação significa muito para o comércio de Araxá", diz, se referindo sobretudo aos empregos indiretos, que considera mais vulneráveis.
A afirmação de Magalhães coincide com os dados socioeconômicos do município, que apontam a mineração como base da economia de Araxá, embora seu peso apareça diluído nas estatísticas oficiais.
Segundo o Observatório Setorial Territorial do Sebrae, com dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), apenas 177 dos 36.237 empregos formais do município (0,5%) estão classificados como extração de nióbio e titânio. O número subestima o setor, porque as empresas que extraem e processam o minério costumam ser registradas em atividades industriais. Somadas as vagas de produção de ferroligas (2.008) e de fertilizantes (763), o núcleo da cadeia chega a cerca de 2,9 mil empregos formais, ou 8% do total, sem contar terceirizados.
Na arrecadação, esse peso é medido pela Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), valor pago pelas mineradoras às regiões e aos órgãos públicos pelo direito de extrair e utilizar os recursos minerais. Em 2022, o valor arrecadado somou cerca de R$15 milhões e, em 2025, mais de R$19 milhões, com mais de 70% vindo do piroclor, minério do qual se extrai o nióbio, seguido por outros, como o fosfato.
O que fica depois que a mina sai
O encerramento ou a paralisação de uma mina pode ter diferentes causas. Irregularidades ou tragédias, como as das barragens de rejeitos de Mariana, em 2015, e de Brumadinho, em 2019. Motivos econômicos, como queda de demanda e de preços, falta de insumos ou mudanças na estratégia da empresa, caso da Mosaic em Araxá. E também por razões operacionais, como o esgotamento da jazida.
Itabira, "cidade do ferro", já viu o fim da vida útil da histórica Mina do Cauê e tem adiado o encerramento das atividades nas minas de Conceição e Do Meio.
A história da Vale, ainda Companhia Vale do Rio Doce, começa em Itabira, e a da mineração no município se confunde com a da empresa. Operado desde 1942, o Cauê se tornou em 1973 a maior frente de extração de minério de ferro do mundo ocidental. Extraiu cerca de 1 bilhão de toneladas e transformou um pico de 1.374 metros em uma cratera que chegou à cota de 700 metros, hoje estampada na bandeira do município. O esgotamento total das reservas foi anunciado em 2006, e a cava passou a receber rejeito e estéril das minas que seguem em operação. Segundo dados da Vale, Conceição e Do Meio passaram a absorver as demandas e o quadro de funcionários do Cauê, o que amorteceu o impacto do fim de ciclo.
Em março de 2026, a Vale anunciou que a vida útil das suas minas em Itabira foi ampliada de 2041 para 2053, atribuindo a extensão ao aproveitamento de materiais antes sem viabilidade econômica. A data consta do Formulário 20-F, relatório anual entregue à Securities and Exchange Commission (SEC), dos Estados Unidos.
Com a vida útil das minas estendida, a cidade ganhou doze anos de emprego e arrecadação que tinham data para acabar. Se o fechamento for mesmo previsto para 2053, a Resolução nº 68 da Agência Nacional de Mineração (ANM) obriga a Vale a comunicar ao órgão a última atualização do Plano de Fechamento de Mina (PFM) até 2051. Na prática, porém, adiar a data não altera a dependência. A empresa afirma não prever aumento da produção anual, e o novo horizonte depende de licenciamento ambiental para novos projetos.
Estudos acadêmicos descrevem uma cidade em que a mineradora passou a ofertar 90% de todos os empregos, tornando Itabira dependente da "Mãe Vale", como era chamada pelos moradores na época. Os números da Vale, de 2023, mostram mais de 3,3 mil empregados próprios, 8,3 mil contratados permanentes e R$245 milhões repassados ao município em CFEM e Imposto Sobre Serviços. Para comparação, o IBGE contava 41.297 pessoas em postos formais de trabalho na cidade no mesmo ano. Se todos os empregados da Vale estivessem nesse universo, seriam mais de um a cada quatro postos.
Em 2022, o prefeito Marco Antônio Lage estimou que 85% da arrecadação e da geração de empregos do município dependiam da Vale. Um número próximo consta do PFM, no qual a empresa afirma que a atividade minerária responde por cerca de 80% do emprego direto no município.
Em Itabira, o peso também aparece na CFEM. A produção do município gerou R$284 milhões em 2025, segundo a ANM, 99% deles provenientes do minério de ferro, cerca de 15 vezes o total arrecadado por Araxá no mesmo ano.
Desde 2021, a Resolução nº 68 exige que todo empreendimento minerário mantenha um PFM, atualizado a cada cinco anos ou a cada atualização do Plano de Aproveitamento Econômico (PAE), o que ocorrer primeiro. Ao final das operações, as mineradoras são obrigadas a recuperar a área degradada, em um processo que inclui desmobilizar instalações provisórias, estabilizar cavas e pilhas, além de descaracterizar ou monitorar permanentemente as barragens de rejeitos.
A capacidade de se preparar para o fim da mineração varia muito de um município para outro. Procurada pela reportagem, a Associação dos Municípios Mineradores de Minas Gerais e do Brasil (AMIG) informou que não dispõe de um estudo técnico específico sobre o tema, mas ponderou que a maior parte dos municípios mineradores arrecada pouca CFEM e, por isso, não tem recursos para investimentos de grande porte em diversificação econômica, ao contrário de um grupo menor de cidades, onde a alta arrecadação se concentra e que, segundo a entidade, teria mais condições de estruturar programas de atração de investimentos.
Entre os exemplos de estratégia estruturada, a AMIG cita São Gonçalo do Rio Abaixo, em Minas Gerais, que adota políticas de diversificação econômica e de redução da dependência da mineração, como o Prospera+. A associação ressalva, no entanto, que o caso não pode ser replicado automaticamente, já que arrecadação, estrutura econômica, população, localização e capacidade de investimento são muito diferentes entre os municípios.
Os efeitos da mineração não terminam com o fechamento da mina, como reconhece o próprio Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Em seu Guia de Critérios de Sustentabilidade para Fechamento de Mina, publicado em 2024, a entidade lista alteração da qualidade da água, problemas de saúde e conflitos sociais entre os impactos que podem persistir depois do fechamento ou da paralisação, e observa que a economia local pode se tornar dependente da mineração, o que afeta o mercado de trabalho, especialmente no fechamento da mina.
Em Serra do Navio, no Amapá, a Indústria e Comércio de Minérios S.A. (ICOMI) extraiu manganês de 1957 a 1997 e construiu a Vila Serra do Navio, cidade planejada para os trabalhadores. Desde a saída da empresa, o município enfrenta o desafio de diversificar a economia.
O abandono de áreas mineradas sem a devida recuperação ambiental transfere um passivo milionáriopara os cofres públicos. Em Santa Catarina, a União responde pela recuperação de aproximadamente 1,1 mil hectares degradados por duas carboníferas que deixaram de existir, com cerca de R$496 milhões previstos e obras que se estendem até 2049, segundo relatório de 2021 do Ministério de Minas e Energia (MME) citado pela ANM. Para as mineradoras em atividade, a agência estuda exigir garantias financeiras para a execução dos planos de fechamento, modelo semelhante ao adotado em países como Austrália e Canadá, segundo análise do escritório Demarest. A proposta foi submetida a consulta pública em 2024 (Consulta Pública nº 6/2024) e consta da agenda regulatória da agência para 2025/2026.





