A pressão sobre as mineradoras brasileiras de minério de ferro voltou a aumentar nesta quinta-feira (17). O frete marítimo na rota entre o Brasil e a China avançou novamente, enquanto o preço do minério de ferro teve apenas uma recuperação marginal e continua abaixo de US$ 100 por tonelada.

A referência Capesize C3, entre Tubarão (ES) e Qingdao, na China, está em US$ 42,54 por tonelada, segundo a leitura mais recente da Mysteel. O valor representa uma nova alta em relação aos US$ 42,12 registrados em 14 de setembro e mantém o frete acima dos US$ 42 por tonelada.

O movimento ocorre depois de a rota ter atingido US$ 40,72/t no início deste mês, praticamente o dobro dos níveis considerados normais antes da escalada dos custos de transporte.

Do outro lado da conta, o minério de ferro ensaiou uma recuperação. O contrato de referência de outubro negociado em Cingapura subia 0,26% nesta quinta-feira, para US$ 96,05/t, segundo dados citados pela Reuters. Foi a segunda sessão consecutiva de alta, mas a commodity permanece abaixo de US$ 100 pelo sexto pregão seguido.

Na prática, a melhora no preço do minério ainda não foi suficiente para compensar a deterioração do custo logístico. O frete de US$ 42,54/t corresponde a cerca de 44% da cotação de US$ 96,05/t do minério de referência — uma comparação que não representa a margem efetiva das empresas, já que são referências com bases diferentes, mas que dimensiona a pressão exercida pelo transporte marítimo.

De acordo com Pablo Alencar, sócio e CBO da Valor Investimentos, O netback de quem exporta hoje gira em torno de US$ 55 a 57 por tonelada, considerando minério perto de US$ 97 e frete de US$ 42,54. “A partir daí, a competitividade depende do custo caixa até o porto. Operações com custo caixa (FOB) acima de US$ 35 por tonelada já estão operando com margem apertada ou negativa nesse cenário. Abaixo de US$ 25, ainda existe folga real. É essa faixa intermediária, entre US$ 25 e US$ 35, que hoje decide se uma mineradora segue produzindo ou passa a considerar parada, manutenção antecipada ou redução de ritmo”.

“A equação ficou historicamente desfavorável. O frete, que representava cerca de 20% do preço do minério até o início do ano, hoje responde por perto de 40%. Isso não é uma oscilação, é mudança de patamar: o custo do transporte deixou de ser variável de ajuste fino e passou a ser, ele mesmo, o fator decisivo da conta. Para qualquer mineradora sem contrato de frete de longo prazo, a decisão de exportar hoje depende menos do preço do minério e mais de quanto sobra depois do frete no spot”, explica Pablo Alencar.

Tesoura volta a abrir

É justamente essa combinação que mantém o alerta para produtores de maior custo. O minério deixou o patamar de US$ 95/t e apresentou duas sessões de recuperação, mas o frete avançou no mesmo período. Com isso, a chamada “tesoura” entre receita da commodity e custo logístico continua aberta.

A situação é particularmente relevante para produtores independentes ou operações cuja estrutura de custos é mais sensível ao transporte marítimo. Um levantamento da XP publicado nesta semana apontou que os fretes elevados continuam comprimindo as realizações FOB dos produtores brasileiros de maior custo e já contribuíram para ajustes de produção na Mineração Usiminas e na Itaminas.

“A alta do minério nas últimas semanas foi, em boa parte, absorvida pelo próprio custo de transporte, que subiu ainda mais rápido. O produtor vende mais caro no papel e recebe, na prática, o mesmo ou menos, porque o frete comeu a diferença. É o mesmo efeito de qualquer negócio com custo logístico relevante: quando o custo variável sobe mais rápido que a receita, a margem aperta mesmo com receita bruta maior”, esclarece Alencar. 

Até o momento, porém, não há anúncio de uma terceira mineradora mineira de minério de ferro adotando uma nova paralisação ou corte relevante em resposta à deterioração do frete. Os dois casos concretos continuam sendo os da Mineração Usiminas, que suspendeu temporariamente as operações da planta de Samambaia, em Itatiaiuçu, e da Itaminas, que anunciou a interrupção, em outubro, de uma planta de beneficiamento a úmido e a colocação de cerca de um terço dos funcionários em licença.

Na Usiminas, a planta de Samambaia representa aproximadamente 30% a 35% da produção de minério de ferro da companhia. A empresa afirmou que a suspensão faz parte de medidas para adequar os custos ao cenário internacional, marcado pela queda dos preços do minério e pelo aumento do frete marítimo.

Na Itaminas, a empresa informou que a interrupção da planta de beneficiamento está prevista para outubro e que a medida tem como objetivo preservar o caixa. A companhia exporta cerca de 90% de sua produção.

“O consenso do mercado hoje é que, a partir de 30% do preço do minério, o frete já pesa de forma estrutural sobre a margem, não só operacional. Estamos em 40%. Nesse patamar, deixa de ser pressão pontual e passa a ser uma variável que qualquer mineradora de médio porte precisa tratar como risco permanente na formação de preço, não como custo residual”, explica o sócio da Valor Investimentos.

O Minera Minas perguntou ao especialista se existe um preço mínimo do minério necessário para compensar um frete nesse patamar. Ele explicou que o mercado já está fazendo essa conta. “Analistas vêm apontando que, se o frete não recuar de forma consistente, o minério precisaria caminhar para faixa de US$ 105 a 110 para sustentar produção de custo mais alto. É basicamente uma equação de dois lados: ou o frete cede, ou o minério sobe o suficiente para cobrir o transporte mais caro. As duas coisas ao mesmo tempo seria incomum”, ressalta Alencar.

China ainda não oferece uma saída clara

O problema é que o mercado chinês, principal destino do minério brasileiro, ainda não apresenta sinais consistentes de recuperação da demanda por aço. Nesta quinta-feira, a Mysteel registrou margem teórica negativa de 126,9 yuans por tonelada para o vergalhão e de 47,6 yuans/t para a bobina a quente no mercado futuro chinês. O quadro mostra que as siderúrgicas continuam operando sob forte pressão de custos e preços.

Ao mesmo tempo, houve aumento das compras de minério por algumas siderúrgicas chinesas antes do feriado nacional de 1º a 7 de outubro. O volume diário de transações de minério transportado por via marítima chegou a 1,41 milhão de toneladas na quarta-feira, alta de 43% sobre o dia anterior, segundo a Mysteel.

O movimento, entretanto, ainda é tratado com cautela. Segundo a Reuters, as margens cada vez menores das siderúrgicas podem limitar a continuidade da recomposição dos estoques e impedir uma recuperação mais forte dos preços do minério.

Para as mineradoras brasileiras, o cenário desta quinta-feira não representa uma reversão da pressão observada no início do mês. O minério ganhou alguns dólares, mas continua abaixo dos US$ 100/t; o frete, por sua vez, avançou novamente e permanece em patamar excepcionalmente elevado.

Produtores mais vulneráveis 

De acordo com o especialista Pablo Alencar, Três perfis concentram o risco. “Primeiro, quem depende do frete no mercado spot em vez de contrato de longo prazo, porque paga o preço cheio da alta. Segundo, quem exporta minério de teor mais baixo, porque o desconto no preço já é maior e sobra menos margem para absorver frete caro. Terceiro, operações sem integração com um negócio maior, como siderurgia própria, que funcionaria como hedge natural. A Vale está numa posição mais confortável justamente por reunir escala, contrato de frete de longo prazo e hedge de combustível. Quem não tem nenhuma dessas três proteções sente o choque primeiro e sente mais forte”.

Sobre o que diferencia quem consegue continuar exportando de quem precisa reduzir ou suspender, Alencar explica que na prática, é uma questão de buffer. “Empresas que já produziram acima da meta no primeiro semestre conseguem usar uma parada como manutenção programada sem alterar a produção anual, como fez a Itaminas. Quem está dentro da meta ou atrasado não tem essa margem e sente a pressão de forma mais direta no resultado, sem alternativa além de reduzir produção de fato ou operar no prejuízo temporariamente”

O alerta para Minas Gerais, neste momento, não é o anúncio de uma nova paralisação. É que as condições econômicas que levaram Usiminas e Itaminas a reduzir suas operações ainda não melhoraram de forma suficiente — e, no caso do frete, chegaram a piorar.

“Eu diria que são o primeiro capítulo, não um caso isolado. O mecanismo que levou as duas a agir é estrutural: frete alto e minério não acompanhando na mesma proporção. Esse mecanismo não escolhe empresa, afeta qualquer mineradora média em Minas Gerais que exporte pelo mesmo corredor logístico. A diferença entre quem já anunciou e quem ainda não anunciou tende a ser menos sobre robustez do negócio e mais sobre timing, contrato de frete e quanto de produção já foi entregue no ano”, salienta Pablo.

Sobre a ausência de nova paralisação significar que as empresas estão absorvendo a pressão, Pablo Alencar explica que existe um intervalo entre deterioração. “A decisão de parar a planta não é imediata: passa por compromisso contratual, meta anual já cumprida ou não, expectativa de o frete recuar no curto prazo, e o custo reputacional de anunciar parada. O caso da Itaminas mostra isso bem, a empresa só conseguiu pausar porque já tinha superado a produção esperada até agosto. Outras companhias na mesma pressão podem estar fazendo ajustes menores que não viram notícia, adiar manutenção, reduzir turno, renegociar frete, antes de qualquer decisão mais drástica. Eu não leria a ausência de novos anúncios como sinal de alívio. Leria como o intervalo natural entre o dado de mercado piorar e a decisão corporativa aparecer publicamente”.