A situação do minério de ferro piorou mais um pouco. A do Supremo Tribunal Federal também. Nesta segunda-feira, o dia foi de tensão no limite. Enquanto o segundo agitava os bastidores para o julgamento de hoje, o minério caiu mais ainda: atingiu a casa dos US$ 95 por tonelada, menor nível desde agosto. Na China, apenas 7,8% das siderúrgicas acompanhadas pela Mysteel, referência chinesa do setor siderúrgico, estavam operando com lucro. Uma semana antes eram cerca de 30%. Foi uma senhora queda. É praticamente um desaparecimento das margens. A própria Mysteel aponta redução da produção de gusa e expectativa de preços do minério permanecendo em níveis baixos.
Para quem produz minério em Minas Gerais e depende da exportação, há outro problema. O frete não caiu junto. Na semana passada, o C3, rota marítima entre Tubarão e Qingdao usada como referência para Brasil-China, estava na faixa dos US$ 41, chegando perto dos US$ 42 em alguns negócios. Havia expectativa de algum alívio. Aconteceu o contrário. Nesta segunda-feira, rompeu a barreira dos US$ 42, chegando a US$ 42,118 por tonelada.
E para piorar a conta, o petróleo Brent chegou a US$ 109 por barril durante o pregão, em meio à escalada da tensão no Oriente Médio. Petróleo caro não determina sozinho o valor do frete, claro, mas também não ajuda quem está torcendo para o custo de levar minério até a China começar a cair
Mas no final das contas, esta é a situação: o produto caiu de preço e ficou ainda mais caro levá-lo até o cliente.
Quem já desistiu de uma compra pela internet na última tela entende um pouco da situação. Você encontra alguma coisa por R$ 100, coloca no carrinho e, quando vai pagar, descobre que o frete custa R$ 40 e tantos. Dá vontade de fechar a tela e deixar para lá.
No minério, evidentemente, a formação de preço é bem mais complexa. Não significa que 44% da receita da mineradora esteja indo para o armador. Mas a comparação ajuda a mostrar o tamanho da desvantagem logística que o produtor brasileiro enfrenta neste momento.
E o cliente também está apertado. O preço do coque, combustível produzido a partir do carvão e fundamental para os altos-fornos, subiu seguidamente. O aço não acompanhou. Algumas siderúrgicas chinesas começaram a entrar em manutenção e reduzir produção. Nesta segunda-feira, a própria SMM informou que os custos elevados do coque já estão enfraquecendo a demanda por minério.
É uma situação curiosa. O vendedor precisa vender mais caro, o comprador precisa comprar mais barato e, no meio dos dois, o navio está cobrando mais. E como o Minera Minas vem abordando sistematicamente, o problema já chegou a Minas.
Noticiamos na semana passada que a Mineração Usiminas suspendeu temporariamente a operação de Samambaia, em Itatiaiuçu, responsável por algo entre 30% e 35% de sua produção mineral. A Itaminas também reduziu atividades e colocou trabalhadores em férias coletivas. Mas ela antecipou manutenções preventivas e está aperfeiçoando rotas e processos. Voltará mais forte.
O clima entre os mineradores mineiros é de alerta. Não tanto quanto em Brasília, com o julgamento no STF tentando juntar os cacos. Enquanto a balança dos mineradores está desequilibrada entre preço baixo e frete alto, a da Justiça no Supremo está em manutenção. E, em Brasília, já tem gente achando que não basta calibrar. Vai ser preciso trocar peça.





