Minas Gerais concentra a maior carteira de investimentos em mineração prevista no Brasil até 2030. Mas transformar quase US$ 20 bilhões em novos projetos e expansões exigirá dois recursos que já enfrentam restrições em partes do estado: água e capacidade de conexão ao sistema elétrico.
A pressão não é uniforme. Enquanto algumas bacias hidrográficas operam sob regras mais restritivas de captação, grandes consumidores de energia podem esperar anos por novas conexões. O cenário não significa que Minas tenha ficado sem água ou eletricidade para minerar, mas revela que a disponibilidade desses recursos tende a pesar cada vez mais na localização, no cronograma e no custo dos novos projetos.
Impulsionado pela forte demanda global por minério de ferro, o setor mineral brasileiro faturou R$298,8 bilhões em 2025, uma alta de 10,3% frente ao ano anterior. Minas Gerais, por sua parte, reafirmou seu protagonismo ao liderar, pelo quarto ano consecutivo, a arrecadação da CFEM, os royalties do setor, somando R$3,6 bilhões. Os dados são do Ibram e da Agência Nacional de Mineração, que projetam para os próximos anos um cenário otimista.
Para o ciclo entre 2026 e 2030, são esperados US$76,9 bilhões em novos investimentos no país, nos quais desse total, Minas Gerais deve responder sozinha por 25,6% dos aportes. Ainda dentro desta cifra, o cobre e as terras raras, essenciais para a fabricação de baterias, veículos elétricos, painéis solares e turbinas eólicas, devem receber parte dos 21,3 bilhões de dólares previstos em investimentos nos próximos anos.
Maria de Lourdes Pereira dos Santos, consultora sênior de Gestão de Recursos Hídricos do Ibram, atribui à transição energética e à digitalização acelerada como dois dos fatores responsáveis por essa onda. Isso porque, componentes essenciais para veículos elétricos e turbinas eólicas dependem diretamente da mineração, enquanto a expansão da inteligência artificial disparou a busca global por insumos tecnológicos, segmento no qual o Brasil desponta como um dos maiores produtores mundiais. Para ela, há também um componente geopolítico. Metais usados em infraestrutura, defesa e fertilizantes tornaram-se centrais nas disputas entre grandes potências, o que atrai o mercado global para as reservas brasileiras.
Além disso, mesmo com o avanço tecnológico, as bases tradicionais do setor seguem sólidas e o minério de ferro continua como o principal pilar da atividade, sustentado pelas indústrias do aço e da construção civil, enquanto o ouro ganha relevância na fabricação de componentes eletrônicos.
O crescimento esperado para os próximos anos, porém, traz uma questão adicional: a infraestrutura disponível nas regiões mineradoras conseguirá acompanhar os investimentos?
Água: pressão depende da região
Comparada a outros setores, a pegada hídrica da mineração é considerada baixa. Segundo a ANA, a atividade responde por cerca de 2% de toda a água retirada no país, e apenas 1,6% desse total é consumo efetivo, a água que não retorna aos rios. O gargalo surge na escala regional. Em Minas Gerais, o setor concentra 11% de toda a demanda hídrica do estado, pesando sobre bacias que já enfrentam forte pressão de outros setores.
É o caso das sub-bacias dos rios Paracatu e Urucuia, no Noroeste de Minas, na divisa com Bahia e Goiás. Em resposta ao Minera Minas, o Igam confirmou que "já existem áreas formalmente declaradas em situação de conflito pelo uso da água em Minas", ainda que "a existência de área declarada de conflito pelo uso de recursos hídricos não corresponde, necessariamente, à concessão de outorgas acima da disponibilidade hídrica. Isso porque a concessão de novas outorgas é condicionada à análise da disponibilidade no trecho e aos limites estabelecidos pela legislação".
Essa pressão levou o Igam a tratar algumas bacias de forma diferenciada. Pela Portaria nº 48/2019, atualizada em 2023, o limite normal de outorga em Minas Gerais é de até 50% da vazão de referência de um rio (o chamado Q7,10). Mas nas bacias do Rio Pará, Paraopeba, Velhas, Jequitaí e Pacuí, Urucuia, afluentes do Médio São Francisco e Verde Grande, esse limite cai para 30%, um reconhecimento formal de que essas bacias já operam sob restrição hídrica mais severa que a média do estado. Nas regiões afetadas, a disputa pelo recurso é marcada por setores em que a irrigação e a agropecuária lideram, com 72% de toda a água captada, seguidas pelo abastecimento público (15%) e pela indústria e mineração (9%).
Quadrilátero Ferrífero concentra diferentes usos
A bacia do Rio das Velhas, principal manancial da Grande Belo Horizonte, concentra a face mais visível dessa pressão. Na região, a mineração e a indústria consomem aproximadamente 14% da vazão outorgada de água, ficando atrás apenas do abastecimento público. Junto com o Rio Paraopeba, o Velhas corta o Quadrilátero Ferrífero, pólo que abriga gigantes como Vale, Gerdau, CSN e Anglo American.
A pressão sobre os recursos hídricos, porém, vai além da superfície. Um relatório da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), feito após vistoria ao Parque Nacional da Serra do Gandarela, alerta para os riscos subterrâneos. Defensores ambientais explicam que a "canga ferruginosa" (a camada que cobre o solo da região) funciona como uma esponja, captando a água da chuva e permitindo que o minério de ferro, que é permeável, a filtre gradualmente para o subsolo.
Esse processo alimenta o Aquífero Cauê, reserva subterrânea crucial para o abastecimento da metrópole. O avanço da mineração sobre essas áreas ameaça destruir essas "esponjas naturais", comprometendo a recarga do aquífero e a segurança hídrica da população. As informações são de um relatório da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), feito após vistoria ao Parque Nacional da Serra do Gandarela em 2024.
Pressão também aparece fora do Quadrilátero
Em Paracatu e Urucuia, a vocação mineral é o ouro. Ali fica o Morro do Ouro, maior mina a céu aberto do Brasil, operada pela canadense Kinross, responsável por cerca de 22% da produção nacional do metal. A mina opera com um dos menores teores de ouro por tonelada do mundo, cerca de 0,40 grama por tonelada de rocha, o que exige processar um volume gigantesco de material, com todo o consumo de água que isso implica. Há também mineração de zinco na região, pela Votorantim Metais.
Na bacia do Rio Pará, no Centro-Oeste mineiro, o perfil muda: a mineração predominante é de areia, no alto e médio curso do rio, e de calcário, na região de Divinópolis e Pains, mineração de agregados para construção civil, e não de minério metálico como no Quadrilátero. Ainda assim, é uma bacia que o Igam declarou em situação crítica de escassez pelo segundo ano consecutivo.
No Vale do Jequitinhonha, a pressão hídrica ganhou um capítulo jurídico. Em setembro de 2025, o Ministério Público Federal recomendou formalmente à ANM a suspensão da mineração de lítio na região, com prazo de 20 dias para resposta. A recomendação se baseia em inquérito civil que apurou violação de direitos de comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais, não consultadas antes da liberação dos projetos, e em perícia técnica que apontou que o Projeto Neves, da Atlas Lithium, causou restrição de acesso à água em Araçuaí, incluindo rompimento de tubulações de abastecimento. A Justiça Federal já havia suspendido, em separado, o licenciamento de outro projeto da mesma empresa, o Projeto Anitta, por falta de consulta a comunidades quilombolas. Já a Sigma Lithium obteve outorga para captar 3,6 milhões de litros de água por dia numa região que enfrenta escassez crônica.
Beneficiamento concentra uso de água
Ainda que normalmente associado a algo 'seco', o recurso hídrico ainda é fundamental em alguns processos minerários, entre eles o do beneficiamento do minério. Antes de seguir para a siderurgia, o material bruto, misturado a terra, argila e outros resíduos, precisa ser britado, lavado e purificado com água e produtos químicos. É a fase mais intensiva do processo, respondendo por 65% de toda a água utilizada nas operações minerárias do Brasil. No caso do ferro, que ainda é o principal produto do setor no país, o consumo pode chegar a mil litros por tonelada processada, segundo a ANA e o Ibram.
Questionado pelo Minera Minas sobre os critérios, o Igam informa que toda concessão de outorga no estado está condicionada à disponibilidade hídrica do trecho, avaliada a partir dos usos já existentes e das vazões de referência, independentemente do setor solicitante.
Do lado do setor, Maria de Lourdes, a especialista do Ibram no assunto, argumenta que a mineração tem atuado para mitigar, e não agravar, a pressão hídrica. Um exemplo é o sistema Rio Manso, no Quadrilátero Ferrífero, que em períodos de estiagem, três hidrelétricas operadas pela AngloGold Ashanti liberam água reservada para reforçar o abastecimento da Grande Belo Horizonte, em acordo com o Comitê da Bacia do Rio das Velhas. Outro caso é o da mina Capão Xavier, da Vale, onde a água do rebaixamento das cavas é repassada à Copasa para abastecimento público. Segundo a entidade, o setor também avança em recirculação e reuso, com meta de reduzir em 10% o consumo de "água nova", captada diretamente de fontes naturais, até 2030, saindo de 0,3 m³ para 0,237 m³ por tonelada de minério bruto.
Embora o montante global de investimentos previstos para os próximos anos seja expressivo, a ANM explicou a este portal que os requerimentos de lavra protocolados pelo órgão em 2026 seguem no mesmo ritmo dos últimos cinco anos, sem sinal de aceleração. A outorga de água, que depende de trâmite separado no Igam, tende a aparecer ainda mais adiante na cadeia.
Tecnologia como aliada
Nesse sentido, a tecnologia é uma aliada importante. Através do sistema de reaproveitamento da água usada no transporte por mineroduto, citada pelo Ibram e exemplificado com o caso da Samarco, na bacia do Rio Doce, e da Anglo American, no Minas-Rio e, em menor escala, a captação de água de chuva. Segundo seu Relatório Anual de Sustentabilidade 2025, a empresa atingiu 87,7% de recirculação global de água, com a unidade de Ubu (ES) operando em recirculação integral e balanço hídrico positivo.
Trata-se de um processo em que, equipamentos chamados espessadores aceleram a decantação, separando o sólido do líquido e a água separada passa por estações de tratamento físico-químico e retorna limpa para abastecer a própria planta industrial, em atividades como resfriamento e controle de poeira.
Energia: grandes conexões podem levar quase três anos
Se a disponibilidade de água depende fortemente da localização do empreendimento, no setor elétrico outro fator ganha importância: o tempo necessário para conectar grandes projetos à rede.
Dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) mostram que a extração de minerais metálicos registrou a segunda maior demanda do mercado livre mineiro em 2025, ficando atrás apenas da metalurgia. Esse ambiente de contratação já responde por mais da metade de toda a eletricidade consumida no estado, um percentual impulsionado justamente por essas duas atividades industriais. O recorde histórico de consumo industrial em julho de 2026 foi puxado pela mineração, segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Já um levantamento da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), baseado em dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), revela que a expansão da capacidade instalada mineira deve recuar doze por cento e meio em 2026 em comparação ao ano anterior. O principal entrave é a falta de diversificação de energia de base. Nos próximos cinco anos, o estado prevê concluir apenas uma nova hidrelétrica, enquanto um terço da expansão projetada ainda depende de usinas poluentes movidas a combustíveis fósseis.
Para novos projetos, entretanto, não basta existir energia no sistema. É necessário haver infraestrutura de transmissão e distribuição capaz de levar essa eletricidade até a operação.
Mapas e estudos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) apontam limitações futuras para novos fluxos de energia em diferentes regiões de Minas Gerais, aumentando a importância dos investimentos em transmissão.
Um exemplo é a Verde Transmissora, responsável por uma linha de transmissão leiloada em 2022. O empreendimento enfrentou atrasos no licenciamento ambiental e precisou recorrer à Aneel e ao Ministério de Minas e Energia para tratar do cronograma da obra.
Cemig e os pedidos dos setores hídrico e mineral
Diante dessas barreiras, as mineradoras recorrem à Cemig para garantir o abastecimento de seus projetos. A distribuidora atende atualmente 45 pedidos do setor hídrico e mineral, divididos entre ampliações de plantas e novas conexões. O tempo de espera varia de acordo com a potência necessária. O prazo é de cerca de um ano para projetos de média tensão e chega a quase três anos para grandes estruturas de alta tensão. Os custos dessas obras seguem regras da Aneel e são divididos entre a distribuidora e a empresa solicitante.
A Cemig afirma, contudo, que não identifica gargalos crônicos de capacidade em regiões como Quadrilátero Ferrífero, Vale do Jequitinhonha ou Alto Paranaíba. A concessionária classifica a matriz do estado como ampla e consolidada, justificando que os prazos mais longos ocorrem apenas em áreas isoladas e sem estrutura para grandes indústrias.




