O governo federal marcou para 17 de dezembro de 2026 o leilão do Corredor Ferroviário Minas-Rio, conjunto de aproximadamente 733 quilômetros de ferrovias que conecta Minas Gerais ao estado do Rio de Janeiro e chega até Angra dos Reis.
O projeto envolve trechos atualmente operados pela Ferrovia Centro-Atlântica (FCA) e prevê a transferência da infraestrutura para novos operadores, que ficarão responsáveis pela manutenção, recuperação e modernização da malha.
Esse será o primeiro certame ferroviário federal realizado em cinco anos. Ele servirá como teste para um novo modelo que o governo pretende utilizar na recuperação de trechos ferroviários ociosos ou parcialmente abandonados em outras regiões do país.
Para Minas Gerais, o projeto recoloca em discussão uma infraestrutura estratégica para o transporte de cargas. A malha alcança regiões produtoras do estado e cria uma ligação ferroviária em direção a Barra Mansa e, em outro lote, ao litoral fluminense.
Embora o corredor tenha potencial para atender não apenas a mineração, sua recuperação é especialmente interessante para um estado que concentra algumas das principais cadeias minerais, siderúrgicas e industriais do país e enfrenta custos elevados para movimentar grandes volumes de carga.
Corredor será dividido em dois lotes
O projeto será ofertado em dois lotes independentes. O Lote 1, com 625,868 quilômetros, reúne o trecho entre Iguatama, em Minas Gerais, e Barra Mansa, no Rio de Janeiro, além da ligação ferroviária entre Varginha e Lavras, no Sul de Minas.
Dentro desse lote, são aproximadamente 495 quilômetros entre Iguatama e Barra Mansa e outros 130,868 quilômetros entre Varginha e Lavras. O Tribunal de Contas da União (TCU), que analisou a modelagem, aponta esse lote como aquele que concentra o principal potencial operacional do projeto.
O Lote 2, com aproximadamente 107 quilômetros, compreende a ferrovia entre Barra Mansa e Angra dos Reis, completando a ligação em direção ao litoral.
Na prática, os dois lotes somam uma malha que atravessa Minas e Rio, mas poderão ter operadores diferentes.

Responsabilidades do novo operador
Uma das características mais importantes do projeto é que o futuro responsável pela ferrovia não receberá simplesmente uma infraestrutura em plena capacidade operacional.
Parte da malha está associada ao processo de devolução de trechos da FCA, e o governo pretende utilizar justamente o Corredor Minas-Rio como modelo para recuperar ferrovias existentes que ficaram ociosas ou subutilizadas.
O operador que assumir cada lote terá responsabilidade pela manutenção, recuperação e modernização da infraestrutura e deverá apresentar, em até dois anos, um plano de recapacitação da ferrovia.
Segundo a ANTT, a experiência poderá orientar futuros chamamentos públicos envolvendo outros trechos ferroviários nessa situação.
A mudança é relevante porque o Brasil acumulou, ao longo das últimas décadas, segmentos ferroviários concedidos que perderam operação ou passaram a ter utilização reduzida, ao mesmo tempo em que empresas continuam dependentes do transporte rodoviário para movimentar parte significativa de suas cargas.
Novo modelo de exploração privada
Apesar de o próprio governo utilizar a expressão “leilão” ao divulgar o calendário, o Corredor Minas-Rio inaugura uma modelagem diferente das concessões ferroviárias tradicionais.
Formalmente, trata-se do primeiro Chamamento Público para Autorização de Exploração da Infraestrutura Ferroviária do Corredor Minas-Rio.
A autorização ocorrerá em regime privado, conforme o Marco Legal das Ferrovias. O contrato envolve a prestação do serviço de transporte ferroviário associada à gestão da infraestrutura dos trechos.
O TCU destaca que o empreendimento será a primeira autorização desse tipo estruturada sob a Lei 14.273/2021 e as regras posteriores da ANTT. A autorização está prevista por 99 anos, com possibilidade de prorrogação.
O caráter pioneiro explica por que o projeto é tratado pelo governo como referência para outras ferrovias que poderão ser oferecidas ao mercado.
Potencial para a mineração
Para a cadeia mineral de Minas Gerais, a recuperação da malha chama atenção porque o transporte ferroviário é particularmente relevante para produtos de grande volume e baixo valor relativo por tonelada, característica de diferentes cargas minerais.
O corredor também se conecta a uma rede ferroviária historicamente utilizada para movimentar produtos siderúrgicos, fertilizantes, insumos industriais, produtos agrícolas e materiais destinados à construção.
Mas a realização do leilão não significa, por si só, que o Corredor Minas-Rio se transformará imediatamente em uma nova rota de exportação para o minério produzido no estado.
Isso dependerá da recuperação efetiva dos trechos, dos investimentos feitos pelos novos operadores, da capacidade operacional alcançada, das conexões com outras ferrovias e terminais e, principalmente, da existência de demanda economicamente viável para transportar cada tipo de carga.
A ligação até Angra dos Reis também não significa automaticamente que grandes volumes de minério de ferro passarão a ser exportados pelo porto. A utilização para cargas minerais dependerá da infraestrutura portuária disponível, dos terminais, dos contratos comerciais e da competitividade da rota em relação às alternativas já utilizadas pelas mineradoras.
Ainda assim, a recuperação de uma ligação ferroviária entre áreas produtoras de Minas e o estado do Rio amplia as possibilidades logísticas que poderão ser avaliadas pelas empresas.
Outros projetos ferroviários no radar de Minas
O Corredor Minas-Rio não é a única movimentação ferroviária que pode afetar a logística mineira.
A própria ANTT prevê avançar com outros projetos envolvendo o estado. Entre eles está um chamamento para o trecho Arcos (MG)–Barra Mansa (RJ), além da EF-118, projetada para ligar o Espírito Santo ao Porto do Açu, no Rio de Janeiro.
O conjunto desses projetos ganha relevância em um momento em que a logística voltou ao centro das discussões sobre competitividade da mineração brasileira.
No transporte internacional, a recente disparada do frete marítimo entre Brasil e China mostrou quanto o custo de movimentação pode interferir nas margens das mineradoras. Dentro do país, ferrovias, rodovias e acessos portuários formam outra parte dessa mesma equação.
Para Minas Gerais, a questão é especialmente importante. O estado concentra grandes volumes de minério de ferro, ouro, nióbio, fosfato e outros minerais, além de uma extensa cadeia siderúrgica e de fornecedores.
Nesse cenário, recuperar trilhos existentes pode ser tão relevante quanto construir novas ferrovias, desde que a infraestrutura recuperada encontre cargas suficientes para tornar a operação economicamente sustentável.




