A repórter Marina Rigueira publicou no Minera Minas uma matéria que deveria estar na cola dos candidatos ao governo de Minas nos próximos debates. Sugiro a leitura aqui.
Resumidamente, a Marina mostra que o minério de ferro está rondando os US$ 100 por tonelada. O frete Brasil-China, na rota C3, passou dos US$ 40 e atingiu o maior patamar em quase cinco anos. Em determinados momentos, transportar uma tonelada de minério do Brasil até a China passou a representar mais de 40% do valor de referência do próprio minério. A conta não fecha.
Só aí já temos um problemaço, sem trocadilho. Mas tem mais.
Do outro lado do mundo, as siderúrgicas chinesas também estão com as margens pressionadas pelo custo das matérias-primas. Algumas reduziram produção ou ampliaram as manutenções. Nesta semana, a perda de produção de gusa provocada por manutenção de altos-fornos chegou a 1,38 milhão de toneladas, segundo a SMM. Ou seja, o aperto das siderúrgicas começa a chegar também a quem vende minério para elas. Hoje, portanto, temos uma situação curiosa: o minerador mineiro está espremido pelo frete, enquanto seu principal cliente está espremido pelo custo de produzir aço.
E isso já saiu das planilhas para produzir efeitos concretos na economia. Na semana passada, a Usiminas suspendeu temporariamente as operações de Samambaia, em Itatiaiuçu. A unidade representa aproximadamente um terço da produção mineral da companhia. Houve desligamentos. A própria empresa relacionou a decisão ao preço do minério e à disparada do frete marítimo.
Tenho ainda informações de duas grandes operações de mineração que estão entregando minério neste momento com margens negativas da ordem de R$ 22 e R$ 26 por tonelada. Continuam produzindo porque têm contratos anteriormente assumidos e precisam entregar.
Quem não está preso a contratos faz outra conta. Pode reduzir produção, cortar custo onde consegue, encher o pátio de minério ou simplesmente parar e esperar o mercado respirar.
É claro que isso não vale para toda a mineração. Uma gigante como a Vale tem escala, estrutura logística e instrumentos comerciais e financeiros muito diferentes dos de uma mineradora média ou pequena. Para se ter uma ideia da diferença, no segundo trimestre o frete marítimo da Vale ficou US$ 10,60 por tonelada abaixo da referência da rota C3 Brasil-China, resultado, entre outras coisas, de sua estratégia de contratos de longo prazo para navios.
O problema mora justamente aí. Quando a sociedade olha para a Vale, está enxergando a mineração ou está enxergando a Vale?
Sinceramente, parece que criamos em Minas uma imagem curiosa da atividade mineral. Mineração fatura bilhões, logo mineração ganha bilhões. Minério sai da terra, vai para a China e sobra dinheiro. É quase uma maquininha de imprimir nota escondida atrás da serra.
Commodity não funciona assim. Tem candidato ao governo de Minas Gerais fazendo conta para reduzir impostos cobrando mais da mineração. Tem também candidato imaginando programas de educação financiados pelo setor. E tem quem anuncie que vai acabar com a “mamata” das mineradoras.
Tudo legítimo numa campanha eleitoral, mas isso forma uma imagem distorcida na sociedade. Só seria interessante saber sobre qual mineração essas contas estão sendo feitas. Aquela das grandes exportações e dos bilhões de faturamento? Ou aquela que, neste momento, tem operação paralisada, minério acumulando no pátio e empresa cumprindo contrato e perdendo dinheiro por tonelada?
Faço aqui um salvo-conduto que momentaneamente defende os candidatos: de quem é a obrigação de explicar isso para eles?
Minerador não sabe comunicar. O medo pode ser a maior razão. A falta de entendimento sobre a importância da comunicação vem em segundo. E a ausência de quem deveria fazer isso pelo setor abraça todas as hipóteses.
Se temos operações parando, pátios enchendo, margens negativas e risco sobre emprego e arrecadação, talvez tenha chegado a hora de as entidades que representam a mineração quebrarem o lacre e apertarem o botão vermelho.
Convoquem uma coletiva de emergência. Façam contas e mostrem os números. Quantas mineradoras de Minas estão operando hoje com margem negativa? Quantas reduziram produção? Quanto minério está acumulado nos pátios? Quantos empregos estão ameaçados? E o mais importante: qual é o atual impacto dessa crise na arrecadação de Minas e dos municípios mineradores? E mostrem também o que ninguém sabe responder hoje: por quanto tempo esse cenário pode durar.
Eu não tenho esses números. E eu não deveria tê-los mesmo. Minas, por outro lado, deveria. Só no primeiro semestre deste ano, o Estado respondeu por 38,2% do faturamento da mineração brasileira, com R$ 57,6 bilhões, e por 44,4% da CFEM arrecadada no país. Estamos falando de uma atividade importante demais para que governo, candidatos e sociedade discutam seu futuro com base na impressão de que todas as mineradoras são uma versão menor da Vale.
É preciso mostrar em detalhes o que compõe este cenário na sua plenitude. E dizer com clareza, já que o óbvio deixou de ser dito, que commodity tem comportamento cíclico e boa parte das variáveis foge do controle de quem produz.
Parte do que estamos vivendo pode mudar, claro. Mas quando e como? Uma redução das tensões no Oriente Médio pode aliviar petróleo e frete. Mais navios disponíveis também podem ajudar. Uma melhora das margens das siderúrgicas chinesas poderia devolver algum fôlego à demanda.
É tudo tão complexo que não podemos deixar de lembrar que Simandou começa a colocar mais minério da Guiné no mercado e, ao mesmo tempo, disputa navios no Atlântico. Há análises prevendo crescimento importante dessa oferta nos próximos anos e enfraquecimento estrutural da demanda chinesa por aço. Uma projeção recente do Westpac trabalha com minério em torno de US$ 97 no quarto trimestre deste ano e US$ 83 no final de 2027. É projeção, evidentemente, não profecia. Geralmente elas falham, felizmente.
É justamente por isso que política pública para mineração não pode ser construída supondo margem eterna.
Hoje a mineração pode ganhar muito. Amanhã pode ganhar pouco. Em determinados ativos, pode perder dinheiro. Depois o ciclo vira novamente. O que não pode variar junto com o preço do minério é a qualidade da informação que chega à sociedade. Principalmente em ano eleitoral, quando uma conta malfeita vira promessa de campanha com enorme facilidade.
Então, antes de perguntar por que os candidatos ao governo de Minas conhecem tão pouco a realidade da mineração, talvez seja melhor fazer outra pergunta. Quem tinha obrigação de explicar?





