Minas Gerais concentra alguns dos principais projetos e ocorrências de terras raras do Brasil. O estado detém algumas das maiores reservas brasileiras, além de outros minerais críticos, como lítio, grafite e nióbio, elementos que estão em uma disputa global. A maior questão é o que será feito com esse tesouro: ele será extraído e vendido ou utilizado para desenvolver tecnologia dentro do país?

A resposta dessa pergunta depende de uma série de fatores e, para especialistas, pende mais para a primeira opção. O Brasil como um todo tem um histórico contundente de exportação de riquezas, desde o ciclo do ouro até o minério de ferro e várias outras commodities que são exportadas até hoje. 

“Vendemos barato o que é extraído e compramos caro o que é produzido com ele. E quem paga a conta mais pesada são os territórios minerados”, resume a pesquisadora e especialista em Especialista em Avaliação de Impactos Ambientais pela UniBH, Maralice Machado Silva. 

Essa estratégia é uma forma mais rápida de obter lucro, mas é também mais volátil e inevitavelmente mais concentrada em menores grupos econômicos. É o que explica o economista e professor de economia, desenvolvimento e meio ambiente na Universidade Federal do Ceará (UFC), Fábio Sobral.

“Quando o preço está alto, essa commodity promove uma balança comercial favorável. Mas, quando o preço cai, o país entra em colapso, em crise financeira, e não consegue pagar seus compromissos internacionais. Esse modelo favorece um benefício às camadas mais ricas e não gera empregos”, diz”

Sobral ressalta que os minerais críticos incitam uma disputa global que já ocorre há décadas pelo controle de matérias primas. “A descoberta das terras raras tornou esse quadro ainda mais perigoso, porque a tecnologia não funciona sem essas terras raras. Tanto a alta tecnologia de uso pessoal, computadores, celulares, como a tecnologia militar, o controle de mísseis, de aviões de quinta geração, drones avançados, sistemas de vigilância”, afirma.

Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o Brasil é o segundo país do mundo com maior reserva de terras raras, com 21 milhões de toneladas do material. Algumas das maiores concentrações estão em Araxá, Poços de Caldas e Tapira, em Minas Gerais. 

Tecnologia ou minério?

Fábio considera que a chave para essa questão é uma união entre extrativistas, governo e universidades. “Para o Brasil exportar tecnologia e não somente minério é preciso que se tenha programas governamentais criando estatais que sejam capazes de interligar as pesquisas universitárias em grandes redes de colaboração”

Para Maralice, o problema que afasta Minas Gerais e o Brasil do desenvolvimento de tecnologia com toda essa riqueza é principalmente política. “Precisamos de uma política de Estado de longo prazo, que não mude a cada governo. O ponto central é que o gargalo não é geológico, é de conhecimento e de capacidade industrial”, coloca.

Ela enfatiza que o desenvolvimento de tecnologias em terras brasileiras seria importante para reter riquezas, gerar empregos e diminuir a dependência das variações globais dos preços de commodities. E acrescenta que o país não precisaria estar sozinho nessa empreitada. “O Brasil pode se especializar em etapas da cadeia, fazer parcerias Sul-Sul com a América Latina, a África e os BRICS, e usar suas reservas como moeda de negociação, e não apenas como mercadoria”, sugere. 

Tendo atuado no atendimento às comunidades atingidas e removidas após o rompimento da barragem em Brumadinho, a pesquisadora se preocupa que a solução tomada seja um extrativismo “verde”, sem levar em consideração o impacto ambiental e às comunidades locais. 

“O futuro da mineração precisa ouvir quem foi historicamente silenciado. Em Gongo Soco, em Brumadinho, no Jequitinhonha, as comunidades sabem melhor do que ninguém o que significa um "desenvolvimento" pensado de cima para baixo”, enfatiza.