A eleição de Cleitinho Azevedo (Republicanos) para o governo de Minas Gerais abre uma nova fase na relação entre o Palácio Tiradentes e um dos setores mais importantes da economia mineira. Eleito no primeiro turno neste domingo (4), com 55,40% dos votos válidos e 6,32 milhões de votos, segundo a apuração praticamente concluída do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o atual senador assumirá o estado em janeiro de 2027. (Justiça Eleitoral)

Para a mineração, as posições apresentadas por Cleitinho durante a campanha combinam dois movimentos que, a partir de agora, precisarão conviver na prática: uma postura mais dura na cobrança das mineradoras e, ao mesmo tempo, a defesa de novos investimentos e da industrialização da produção mineral dentro de Minas Gerais.

No programa de governo registrado durante a campanha, o setor aparece dentro do eixo chamado de “Mineração do Futuro”. A proposta é desenvolver cadeias de maior valor agregado para terras raras e minerais estratégicos, incentivar inovação e pesquisa, aproveitar rejeitos, ampliar a segurança da atividade e preparar municípios mineradores para diversificar suas economias. (Apuração Política)

Cleitinho quer Minas deixando de exportar apenas matéria-prima

Um dos pontos mais claros da proposta do governador eleito está relacionado aos minerais críticos e estratégicos.

Durante a campanha, Cleitinho defendeu que Minas Gerais avance além da extração mineral e passe a concentrar também etapas de transformação e industrialização.

“Minas Gerais não pode ser apenas um estado que extrai e exporta pedra bruta”, afirmou ao detalhar sua proposta para o setor. (Estado de Minas)

A estratégia defendida por ele prevê aproximar universidades, centros de pesquisa e empresas para desenvolver tecnologias e atrair investimentos capazes de transformar terras raras e outros minerais estratégicos em produtos de maior valor agregado dentro do próprio estado.

É uma agenda particularmente relevante para Minas Gerais diante da corrida internacional por terras raras, lítio, grafite e outros minerais considerados essenciais para baterias, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e tecnologias ligadas à transição energética.

O programa registrado pela candidatura, porém, apresenta essa diretriz de maneira relativamente ampla e não detalha instrumentos específicos, metas de investimento ou incentivos que serão utilizados para desenvolver essa cadeia.

Rejeitos também entram na estratégia

Outro ponto previsto pelo governador eleito é o reaproveitamento dos rejeitos da mineração.

A proposta é estimular tecnologias capazes de recuperar minerais e outros materiais de valor econômico presentes em rejeitos e transformar estruturas que hoje representam passivos ambientais em novas atividades econômicas.

Durante a campanha, Cleitinho defendeu que o aproveitamento desses materiais possa gerar emprego e renda ao mesmo tempo em que reduz passivos deixados pela atividade mineral. (Estado de Minas)

Barragens terão promessa de fiscalização diária

Na área de segurança, Cleitinho adotou um discurso mais rígido.

O governador eleito prometeu realizar fiscalização diária, rigorosa e transparente das barragens de mineração existentes no estado e acompanhar o processo de descaracterização das estruturas construídas pelo método a montante.

A proposta prevê utilização de tecnologia, monitoramento e dados em tempo real, além da integração entre órgãos ambientais, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros.

“A segurança das pessoas vem sempre em primeiro lugar”, afirmou durante a campanha, ao prometer “tolerância zero com a negligência”. (Estado de Minas)

O desafio será transformar a promessa de fiscalização diária em capacidade operacional do Estado, especialmente diante do número de estruturas existentes e da necessidade de equipes técnicas, sistemas de monitoramento e integração entre diferentes órgãos.

Licenciamento: menos burocracia e mais digitalização

Se na fiscalização das barragens o discurso foi de endurecimento, no licenciamento ambiental Cleitinho prometeu mais rapidez.

O governador eleito defende modernizar e digitalizar os processos para reduzir burocracia e tempo de análise dos empreendimentos.

Segundo ele, a intenção é tornar o licenciamento mais eficiente para empresas que cumprem as regras sem retirar exigências técnicas ou ambientais.

“O processo precisa ser transparente e eficiente para quem quer trabalhar certo”, afirmou durante a campanha. (Estado de Minas)

A proposta coloca o novo governo diante de uma das principais reclamações das empresas do setor mineral: a demora para obtenção de licenças e autorizações necessárias para novos projetos e expansões.

O ponto mais sensível: incentivos fiscais às mineradoras

Mas é na relação financeira com as mineradoras que Cleitinho apresentou uma das posições potencialmente mais relevantes para o setor.

Em agosto, ainda como senador e pré-candidato ao governo, ele defendeu no plenário do Senado o fim dos incentivos fiscais federais concedidos a mineradoras que atuam em Minas Gerais.

A proposta apresentada por Cleitinho seria negociar com o governo federal para que esses valores fossem utilizados para ajudar a reduzir a dívida mineira com a União.

“Parem de dar incentivo fiscal para essas mineradoras! Vamos agora fazê-las pagar para poder descontar na dívida do estado, para poder fazer política pública”, afirmou. (Senado Federal)

No mesmo pronunciamento, Cleitinho afirmou que nenhum governador teria tido coragem de “enfrentar as mineradoras” para buscar recursos que pudessem aliviar a carga tributária sobre a população.

A concretização dessa proposta, entretanto, não depende exclusivamente do governo estadual, já que Cleitinho se referiu especificamente a benefícios tributários federais. A medida exigiria negociação com a União.

Mais arrecadação da mineração também entrou no debate

A relação entre mineração e arrecadação apareceu novamente durante a campanha.

Em sabatina realizada em agosto, ao ser questionado sobre aumento da arrecadação ligada à atividade mineral, Cleitinho defendeu diálogo com o governo federal para buscar uma cobrança que classificou como mais “justa e honesta”.

Ao mesmo tempo, afirmou que as empresas precisam continuar explorando os recursos minerais, indicando que sua proposta não é restringir a atividade, mas rever a relação financeira entre o setor e o poder público. (Ceticismo)

Esse será um dos pontos que merecerão acompanhamento a partir da formação do novo governo: como a retórica de maior cobrança sobre as mineradoras será conciliada com a estratégia de atrair novos investimentos para minerais críticos e ampliar a industrialização da cadeia mineral em Minas Gerais.

Da campanha para o governo

As propostas apresentadas até agora indicam que Cleitinho não pretende reduzir a importância da mineração na economia mineira.

Ao contrário.

Seu programa aposta na expansão de novas cadeias minerais, especialmente terras raras e minerais estratégicos, no aproveitamento de rejeitos e na instalação de etapas industriais de maior valor agregado dentro do estado.

Ao mesmo tempo, o governador eleito chega ao Palácio Tiradentes depois de construir parte de seu discurso político cobrando mais das grandes mineradoras.

A partir de janeiro, essas duas agendas terão que se encontrar.

Para as empresas, algumas perguntas passam a ser centrais: quais incentivos fiscais serão efetivamente revistos? Como funcionará a prometida aceleração do licenciamento? De que maneira será implementada a fiscalização diária das barragens? E quais instrumentos o novo governo utilizará para transformar a promessa de uma “Mineração do Futuro” em novos investimentos industriais?

Com Cleitinho eleito, a mineração deixa de ser apenas uma pauta de campanha.

Passa a ser um dos primeiros testes econômicos, ambientais e políticos do próximo governo de Minas Gerais.

Editoria recomendada: Economia Mineral

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Cleitinho eleito: veja o que o novo governador de Minas promete para a mineração

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Cleitinho chega ao governo de Minas com uma combinação que merece atenção do setor mineral: promete cobrar mais das mineradoras e rever incentivos, mas também quer acelerar licenciamentos, desenvolver terras raras, agregar valor aos minerais e ampliar o aproveitamento de rejeitos. Veja o que o governador eleito já disse e prometeu para a mineração mineira.