A corrida pelas terras raras em Minas Gerais está redesenhando o mapa da mineração no Estado. Se Araxá e Caldas concentram projetos de extração, Poços de Caldas reúne diferentes empreendimentos e começa a avançar também no processamento, enquanto Uberlândia tenta ocupar uma etapa ainda mais estratégica da cadeia: a separação e transformação dos minerais em produtos de maior valor agregado. O movimento ocorre em meio à criação de uma nova política nacional para minerais críticos e estratégicos e à disputa global pelo controle desses insumos. E escancara o desafio de não apenas extrair terras raras, mas desenvolver uma cadeia industrial capaz de manter em Minas Gerais uma parcela maior da riqueza gerada por esses minerais.
O movimento ganhou velocidade nos últimos meses. Em agosto, a australiana St George Mining assinou protocolo com o Grupo Lima & Pergher para estudar um centro de processamento de terras raras em Uberlândia, projeto estimado em R$ 2 bilhões. Em setembro, o BNDES aprovou R$ 77,5 milhões para um centro de pesquisa e processamento ligado ao Projeto Colossus, da Viridis, em Poços de Caldas. Ao mesmo tempo, projetos como Caldeira, da Meteoric, e Morro do Ferro, da Power Minerals, ampliam a concentração de empreendimentos no Sul de Minas.
Araxá → recurso mineral + projeto de mineração da St George Mining;
Poços de Caldas → concentração de grandes projetos de mineração e processamento, com Viridis e Morro do Ferro/Power Minerals;
Caldas → território do Projeto Caldeira, da Meteoric, um dos projetos mais avançados do País;
Uberlândia → possível polo industrial de separação/processamento, mesmo sem ser um município de jazida de terras raras.
E há ainda uma segunda camada: Patos de Minas, Presidente Olegário, Tiros e Patrocínio, entre outros, que podem entrar nessa corrida à medida que seus projetos avançam.
A ANM registrou forte aumento do interesse pela pesquisa de terras raras. Em 2024, Minas Gerais recebeu 321 novos alvarás de pesquisa para ETR e monazita, atrás apenas da Bahia, dentro de um total nacional de 1.370 novos alvarás — alta de 291% em relação ao ano anterior.
O tamanho da oportunidade para Minas
O Brasil tinha, em 2024, 11,4 milhões de toneladas de terras raras contidas em reservas provadas e prováveis, segundo a ANM/USGS, ficando atrás apenas da China, com 44 milhões de toneladas. As ocorrências brasileiras estão associadas a diferentes ambientes geológicos, incluindo Araxá, Poços de Caldas e Tapira, em Minas Gerais.
Mas existe um enorme problema: ter reserva não significa ter cadeia industrial. A produção brasileira ainda é incipiente. Segundo estudo do CETEM, a única operação comercial de terras raras atualmente em produção no Brasil é a Serra Verde, em Minaçu (GO), iniciada em 2024.
Os projetos mineiros mais avançados estão concentrados principalmente em Caldeira/Meteoric, Colossus/Viridis e outros empreendimentos em desenvolvimento. A cadeia é longa: lavra → beneficiamento → lixiviação → separação/purificação → óxidos → metais/ligas → ímãs permanentes. O grande gargalo brasileiro continua justamente nas etapas intermediárias e finais. É aí que entra Uberlândia.
Araxá, a cidade que tem o minério
A St George Mining - empresa australiana de mineração com foco em minerais críticos - está desenvolvendo o Projeto Araxá, voltado à produção de terras raras e nióbio. O projeto deu um salto importante em agosto de 2026. Em 11 de agosto, a empresa anunciou uma nova estimativa de recursos minerais. Segundo a companhia, o projeto passou a ter:
111,2 milhões de toneladas de recurso mineral;
3,98 milhões de toneladas de TREO — óxidos totais de terras raras;
760 mil toneladas de óxidos de NdPr — neodímio + praseodímio;
630 mil toneladas de Nb₂O₅;
cerca de 68% do recurso nas categorias Medida + Indicada.
Os volumes divulgados, entretanto, representam estimativas de recursos minerais, e não produção futura garantida. A conversão desses recursos em reservas economicamente lavráveis depende de estudos técnicos, econômicos e ambientais.
Procurada pelo Minera Minas, a companhia informou que o Projeto Araxá conta atualmente com cerca de 150 profissionais diretos e terceiros envolvidos nas diferentes frentes de trabalho. Em nota, a St George Mining informou também que a estratégia inclui priorizar fornecedores e prestadores de serviços da região, com expectativa de gerar cerca de 400 empregos diretos durante a implantação.
Ainda de acordo com a mineradora, em agosto de 2026 o projeto iniciou formalmente o processo de licenciamento ambiental, ao submeter o protocolo do EIA (Estudo de Impacto Ambiental) e do Rima (Relatório de Impacto Ambiental) à Feam (Fundação Estadual do Meio Ambiente).
Como parte das medidas relacionadas ao licenciamento, a empresa informou ter adquirido uma área de 163 hectares, situada a aproximadamente 19,5 quilômetros da área principal do empreendimento, destinada à compensação ambiental e à criação de um corredor ecológico.
Houve ainda a assinatura de um Memorando de Entendimento firmado com o Governo de
Minas Gerais para apoiar a tramitação do licenciamento, por se tratar de projeto estratégico
para o Estado.
A St George também firmou uma parceria de R$ 25 milhões em investimento previsto para
implantação de um Centro de Pesquisa e Inovação em parceria com o Cefet-MG (Campus Araxá).
Em relação ao cronograma, a mineradora informou ao Minera Minas que trabalha com dois cenários de implantação.
No modelo brownfield, que aproveita estruturas ou instalações existentes, o início das operações é considerado para 2028. No cenário greenfield, que pressupõe uma implantação a partir de novas estruturas, a previsão é 2030. A definição ainda está em avaliação.
O cronograma representa uma revisão das expectativas apresentadas anteriormente. Quando o memorando com o governo mineiro foi anunciado, o planejamento considerava a construção da mina em 2026 e o início das operações em 2027.
Uberlândia: a disputa pelo processamento
A aproximadamente 180 quilômetros de Araxá, Uberlândia tenta ocupar uma posição diferente na cadeia das terras raras.
Em agosto, a St George Mining assinou protocolo de intenções com o Grupo Lima & Pergher para desenvolver um centro de processamento de terras raras em Uberlândia. A unidade seria instalada no complexo industrial da START, divisão química e industrial do grupo. O investimento é estimado em aproximadamente R$ 2 bilhões, com previsão de operação até 2030 após estudos de viabilidade.
O empreendimento ainda está em fase inicial de avaliação: as empresas ainda não definiram o desenho final da planta, o volume definitivo do investimento nem exatamente até qual etapa chegaria o processamento.
Sendo assim, Uberlândia pode se tornar importante sem possuir jazida. O município tem: infraestrutura industrial, experiência química, mão de obra, logística, acesso rodoviário e proximidade de grandes polos consumidores e produtores. Ou seja, a cidade pode capturar uma parte importante do valor agregado em território mineiro.
Após o anúncio do protocolo em Uberlândia, a Prefeitura de Araxá informou que não participou das tratativas e que o município não integra o acordo referente à unidade industrial.
A manifestação não caracteriza, por si só, uma disputa formal entre as duas cidades.
Ela evidencia, porém, a importância de compreender quais etapas da cadeia poderão se instalar em cada município e quais benefícios econômicos estarão associados a elas.
Poços de Caldas: o maior núcleo da disputa em Minas
Poços de Caldas é o município mais complexo na disputa por protagonismo no estado. Não há apenas um projeto. Há vários empreendimentos e diferentes empresas disputando espaço dentro do mesmo complexo geológico. A própria ANM relaciona projetos da Viridis, Meteoric, Axel REE e Perpetual Resources na região. E, em 2026, entrou ainda a Power Minerals/Morro do Ferro.
O Projeto Colossus da Viridis é um dos mais importantes. A Viridis Mining and Minerals, australiana, controla o Projeto Colossus, baseado em argilas iônicas no Complexo de Poços de Caldas. Em agosto, a empresa anunciou compromissos de investimento de até US$ 120 milhões para o projeto.
Somados ao caixa e a investimentos anteriores, a empresa informou ter aproximadamente US$ 154 milhões em capital identificado, acima dos US$ 135 milhões que estimava necessários para financiar o desenvolvimento inicial.
O investimento total previsto para o Colossus é de aproximadamente US$ 449 milhões. A expectativa da empresa é iniciar a construção em 2027 e produção comercial em 2028.
E em 8 de setembro, o BNDES aprovou R$ 77,5 milhões para a construção do Centro de Pesquisa e Processamento de Terras Raras (CPTR), em Poços de Caldas. O centro deverá:
produzir carbonato misto de terras raras em escala piloto;
testar rotas de processamento de argilas iônicas;
servir de etapa de desenvolvimento tecnológico para a futura planta industrial.
A implantação deve começar no primeiro trimestre de 2027, com operação prevista para o fim de 2028.
Outro empreendimento relevante é o Projeto Caldeira, desenvolvido pela Meteoric Resources. Embora frequentemente associado a Poços de Caldas, o projeto tem sua área de lavra localizada no município de Caldas. As atividades de processamento e a planta-piloto, por sua vez, estão vinculadas a Poços de Caldas.
A distinção é importante para compreender a distribuição territorial das atividades e de seus possíveis impactos econômicos e ambientais.
Segundo a Meteoric, o Caldeira chegou a aproximadamente 1,6 bilhão de toneladas de recurso mineral, com cerca de 2.317 partes por milhao de TREO. A empresa trabalha com a perspectiva de desenvolver uma operação de grande escala, com início de produção projetado para 2028, condicionado ao avanço das etapas necessárias.
O Projeto Caldeira ganhou uma nova dimensão em 1º de outubro de 2026, quando a australiana Lynas Rare Earths anunciou um acordo para adquirir 100% das ações da Meteoric Resources.
A transação prevê troca de ações e ainda depende da aprovação dos acionistas da Meteoric, da Justiça australiana e das autorizações regulatórias aplicáveis no Brasil. A conclusão está prevista para março de 2027.
A entrada da Lynas, que já atua no processamento e na separação de terras raras, pode ampliar as possibilidades de integração do projeto mineiro a uma cadeia industrial internacional. A operação, entretanto, ainda não foi concluída.
O Projeto Caldeira também participa de iniciativas voltadas ao desenvolvimento tecnológico no Brasil.
A Meteoric já enviou material produzido em sua planta-piloto de Poços de Caldas para o projeto MagBras, em Lagoa Santa. Foram enviados 20 kg de carbonato de terras raras para pesquisas destinadas à obtenção de óxidos, ligas e produção de ímãs NdFeB. Já existe, portanto, uma espécie de embrião de cadeia mineira-industrial dentro de Minas: Caldas → Poços → Lagoa Santa.
Morro do Ferro amplia o interesse pelo Sul de Minas
O projeto Morro do Ferro da australiana Power Minerals é uma novidade importante de 2026. A Power Minerals concluiu a aquisição da Mineração Terras Raras e do Projeto Morro do Ferro em abril. O negócio foi anunciado por A$ 22,5 milhões, incluindo dinheiro, ações e royalty futuro.
O projeto apresenta mineralização de alto teor. Dados históricos apontaram, por exemplo:
100,2 metros com 6.103 ppm de MREO;
100,44 metros com 9.485 ppm;
60,6 metros com 13.129 ppm.
A empresa iniciou em junho uma campanha de 4.800 metros de sondagem diamantada.
Portanto, Poços de Caldas está vivendo uma disputa territorial real. A população local está questionando os impactos ambientais dos projetos. Em agosto, a ALMG registrou relatos de moradores sobre possíveis escavações próximas a casas e escolas e preocupações relacionadas aos impactos da mineração.
Em junho, uma missão interministerial visitou Poços de Caldas, Caldas, Andradas e Águas da Prata para ouvir comunidades e discutir impactos sociais, ambientais e econômicos dos projetos.
A missão inclui órgãos como:
MME;
MMA;
Ministério da Saúde;
Ministério dos Direitos Humanos;
MCTI;
Ibama;
ANSN;
SGB/CPRM;
IFSULDEMINAS;
Unifal.
A ANSN também informou que realizou inspeções nas plantas-piloto da Viridis e da Meteoric. A Prefeitura de Poços criou, em agosto, um comitê específico para acompanhar a exploração de terras raras, com prioridade para a participação dos moradores da Zona Sul.
Papel dos protagonistas na cadeia
Araxá
Jazida + mineração
Caldas
Jazida/lavra do Projeto Caldeira
Poços de Caldas
Vários projetos + plantas-piloto + processamento
Uberlândia
Potencial polo de separação/refino/processamento
Embora Araxá, Caldas, Poços de Caldas e Uberlândia concentrem parte dos principais anúncios recentes, outros municípios mineiros também aparecem no levantamento de projetos de terras raras.
Entre eles estão Patos de Minas, Presidente Olegário, Tiros, Patrocínio, Arapuá e Bambuí.
Na região de Patos de Minas e Presidente Olegário, a Terra Brasil Minerals desenvolve um projeto associado a depósitos de kamafugito, com presença de titânio, terras raras, fosfato e potássio.
De acordo com dados divulgados, a empresa possui projeto entre Patos de Minas e Presidente Olegário, com recursos minerais de mais de 2 bilhões de toneladas de kamafugito, contendo titânio, terras raras, fosfato e potássio. A empresa já buscava investimentos de aproximadamente US$ 1 bilhão para seus projetos na região.
Na cidade de Tiros, o Projeto Tiros, da Resouro Strategic Metals, combina titânio e terras raras. Dados divulgados pela companhia apontam cerca de 1,4 bilhão de toneladas de recursos medidos e indicados, com média de 12% de TiO₂ e aproximadamente 4.000 ppm de TREO. Em 2026, o projeto continuava avançando em pesquisa e desenvolvimento.
Patrocínio também entrou no radar de empresas de terras raras. A ANM relaciona projetos como Mata da Corda e Salitre na região. Além disso, a região de Serra Negra, próxima a Patrocínio, voltou ao radar de empresas interessadas em minerais críticos.
Desafio de transformar mineral em indústria
Para David Moreira, presidente do Instituto Nacional de Terras Raras, o aumento de anúncios de projetos e descobertas minerais precisa ser acompanhado de uma discussão mais profunda sobre a viabilidade industrial. "O Brasil já mostrou ao mundo que tem terras raras. Agora precisa mostrar que sabe o que fazer com elas. Ocorrência mineral é o começo de uma jornada. Entre uma amostra positiva e uma operação industrial existe um caminho longo, caro e tecnicamente complexo”, afirma.
Segundo ele, uma das dificuldades para atrair capital é demonstrar com clareza como cada projeto poderá gerar retorno econômico. “Novas ocorrências, sondagens, aquisições e projetos são anunciados com frequência, enquanto empresas estrangeiras ampliam sua presença em diferentes regiões do país. O movimento confirma a importância da geologia brasileira, mas também expõe uma questão que precisa ser tratada com mais clareza. Encontrar mineral não é o mesmo que colocar uma mina em operação e muito menos construir uma cadeia industrial”, levanta o questionamento.
Segundo Moreira, parte da dificuldade do investidor brasileiro em enxergar o setor está justamente na ausência de uma visão completa do ciclo econômico. Um investidor precisa saber qual minério existe, como será processado, qual recuperação pode ser obtida, qual será o custo de produção, quem comprará o produto e onde está a margem do negócio. Sem essas respostas, o capital encontra dificuldade para precificar o risco.
O Brasil possui mercado financeiro, empresas de mineração, fundos e grupos industriais com capacidade de investimento. O desafio é apresentar projetos cuja lógica econômica possa ser acompanhada do início ao fim. Em terras raras, isso significa ir além da prospecção e conectar caracterização mineralógica, engenharia, recuperação metalúrgica, licenciamento, mineração, concentração, separação, produção de óxidos, metais, ligas e componentes como os ímãs permanentes.
Entenda mais no artigo Brasil precisa transformar ocorrências de terras raras em projetos industriais.





