Poços de Caldas voltou ao centro da discussão sobre o futuro das terras raras no Brasil. Enquanto Romeu Zema (Novo), candidato à Presidência da República, defendeu nesta terça-feira (22) que o país avance além da extração e mantenha em território nacional as etapas de maior valor da cadeia, um novo anúncio empresarial reforça a corrida pelos minerais estratégicos no Sul de Minas.

Durante agenda de campanha no município, Zema afirmou que o Brasil deveria usar suas reservas de terras raras para desenvolver uma cadeia industrial capaz de chegar à fabricação de ímãs de alto desempenho, em vez de se limitar à exportação da matéria-prima.

Nós não vamos exportar o minério, nós vamos exportar o superímã pronto para aplicação”, afirmou o candidato. Segundo Zema, a estratégia permitiria manter no Brasil atividades industriais e empregos associados às etapas de maior valor agregado.

O candidato citou como referência a cadeia do nióbio em Minas Gerais, defendendo que extração, beneficiamento e transformação industrial também sejam desenvolvidos no país no caso das terras raras.

A declaração ocorre justamente em um momento de aceleração dos projetos voltados a esses minerais na região de Poços de Caldas.

Australiana define primeiro alvo no Morro do Ferro

A Power Minerals, companhia australiana listada na bolsa de valores de Sydney, anunciou nesta semana o primeiro Alvo de Exploração (Exploration Target) do projeto Morro do Ferro, localizado no Sul de Minas.

A estimativa aponta entre 9,2 milhões e 10,7 milhões de toneladas de material, com teores entre 7,8% e 9,2% de óxidos totais de terras raras (TREO).

O alvo contém ainda estimativa de 1,3% a 1,6% de óxidos de terras raras magnéticas (MREO), grupo formado por neodímio, praseodímio, térbio e disprósio. Esses elementos estão entre os mais relevantes para a produção dos ímãs permanentes utilizados em motores elétricos, geração de energia, robótica e outras aplicações tecnológicas.

É justamente essa etapa posterior da cadeia que aparece no discurso de Zema sobre a necessidade de industrialização das terras raras no Brasil.

Os números divulgados pela Power Minerals, porém, ainda não representam uma reserva ou um recurso mineral definido. Trata-se de um alvo de exploração, uma estimativa utilizada para orientar os trabalhos seguintes de pesquisa.

A companhia trabalha atualmente com duas sondas no projeto e pretende avançar para uma primeira estimativa formal de recursos minerais entre o quarto trimestre de 2026 e o primeiro trimestre de 2027.

Por isso, também é importante fazer uma distinção: os até 10,7 milhões de toneladas divulgados correspondem ao material estimado no alvo de exploração, com teores de até 9,2% de TREO — e não a 10,7 milhões de toneladas de terras raras propriamente ditas.

Projeto foi adquirido neste ano

O Morro do Ferro passou para o controle da Power Minerals em 2026. A própria companhia classifica o empreendimento mineiro como um projeto de terras raras de alto teor e afirma que pretende priorizar minerais usados na fabricação de ímãs.

Resultados recentes de sondagens já vinham ampliando a atenção sobre o ativo. No início de setembro, por exemplo, a companhia informou uma interseção de 88 metros com teor médio de 6,33% de TREO a partir da superfície, incluindo um intervalo de 20 metros com 12,05%.

O novo alvo de exploração consolida os dados obtidos até agora e dá à empresa uma referência para dimensionar o potencial do depósito.

A movimentação acrescenta mais um projeto ao avanço das empresas interessadas nas terras raras do Planalto de Poços de Caldas. A região já recebe projetos de outras companhias e, em junho, foi alvo de uma missão interministerial do governo federal para acompanhar os empreendimentos e discutir seus impactos com comunidades locais.

Extração avança; desafio é ampliar a cadeia

A proximidade entre os dois acontecimentos ajuda a expor uma das principais questões em torno das terras raras brasileiras.

De um lado, empresas avançam na pesquisa mineral e na identificação de depósitos em Minas Gerais. Do outro, cresce a discussão sobre quanto da cadeia de valor desses minerais será desenvolvida dentro do Brasil.

A presença de companhias estrangeiras na exploração mineral não significa, por si só, que o minério extraído será exportado sem processamento. O próprio projeto Morro do Ferro ainda está em fase de pesquisa e não possui uma reserva mineral definida.

Mas o avanço dos investimentos coloca em evidência uma etapa seguinte: transformar o potencial geológico brasileiro em uma cadeia que inclua não apenas mineração e beneficiamento, mas também separação dos elementos, processamento, produção de ligas e fabricação dos ímãs utilizados pela indústria.

Na agenda em Poços de Caldas, Zema também defendeu que exploração mineral e preservação ambiental sejam conciliadas e citou Austrália e Canadá como referências.

O debate ambiental, no entanto, também está presente na região. Em agosto, moradores levaram à Assembleia Legislativa de Minas Gerais preocupações sobre os impactos de projetos de terras raras próximos a áreas habitadas e escolas.

A Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN), por sua vez, informou em junho que acompanha os empreendimentos mínero-industriais da região, incluindo inspeções e coleta de amostras em plantas-piloto de projetos em desenvolvimento.

Assim, Poços de Caldas reúne hoje as duas pontas de um debate que tende a ganhar peso na mineração brasileira: como explorar uma reserva estratégica e, ao mesmo tempo, transformar essa riqueza mineral em indústria, tecnologia e valor agregado dentro do país.