A australiana Lynas Rare Earths fechou um acordo para adquirir 100% da Meteoric Resources, dona do Projeto Caldeira, no Sul de Minas Gerais, em uma transação avaliada em aproximadamente A$ 968 milhões — cerca de US$ 672 milhões ou R$ 3,5 bilhões.

A operação, no entanto, ainda não está concluída. O acordo é vinculante, mas depende da aprovação dos acionistas da Meteoric, da Justiça australiana e das autorizações regulatórias necessárias no Brasil. A expectativa das empresas é concluir o negócio até março de 2027.

O movimento chama atenção não apenas pelo valor. A negociação acontece duas semanas depois da sanção da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que criou novos instrumentos para o governo brasileiro acompanhar ativos considerados estratégicos e mudanças de controle de empresas do setor.

A aquisição da Meteoric deve, por isso, se tornar um dos primeiros grandes casos a passar pelo novo modelo brasileiro de análise de minerais críticos. A própria conclusão da transação foi condicionada à obtenção da aprovação regulatória pertinente no Brasil.

Qual é o principal ativo da negociação?

O interesse da Lynas está principalmente no Projeto Caldeira, localizado no Sul de Minas, próximo a Poços de Caldas.

Segundo a Meteoric, o empreendimento possui um recurso mineral estimado em 1,6 bilhão de toneladas, distribuído por 77 licenças que abrangem mais de 193 quilômetros quadrados. A companhia o classifica como um dos maiores projetos conhecidos de terras raras em argilas de adsorção iônica fora da China.

Os recursos minerais estimados incluem aproximadamente 802 mil toneladas de neodímio e praseodímio (NdPr) e 41 mil toneladas de disprósio e térbio (DyTb). Esses elementos são utilizados na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho empregados, entre outras aplicações, em veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos eletrônicos.

O projeto concluiu seu Estudo de Viabilidade Definitivo em julho deste ano. A implantação ainda depende do avanço do licenciamento ambiental.

Quanto será investido para desenvolver Caldeira?

A compra da Meteoric é apenas uma parte do dinheiro que pode ser movimentado pelo projeto mineiro.

A Lynas estima que o desenvolvimento de Caldeira exigirá mais de US$ 500 milhões em investimentos de capital. O estudo elaborado pela Meteoric anteriormente estimava aproximadamente US$ 498 milhões para colocar o empreendimento em operação.

O planejamento prevê uma operação de aproximadamente 23 anos, com produção média anual estimada em 12,5 mil toneladas de óxidos de terras raras.

Como parte do acordo, a Lynas também se comprometeu a disponibilizar uma linha de financiamento interina de até A$ 110 milhões para permitir que a Meteoric continue desenvolvendo o projeto enquanto a transação não é concluída.

Quem é a empresa que quer assumir o projeto mineiro?

A Lynas já possui operações de terras raras na Austrália e na Malásia e é uma das maiores produtoras de terras raras separadas fora da China. A incorporação de Caldeira permitiria à companhia acrescentar ao seu portfólio um grande depósito de argilas iônicas, com presença de terras raras leves e pesadas.

Segundo as empresas, a incorporação de Caldeira representaria um aumento de aproximadamente 79% nos recursos minerais da Lynas e de 26% em suas reservas de minério.

A negociação será realizada integralmente por meio de troca de ações. Os acionistas da Meteoric receberão 0,0207 ação da Lynas para cada ação da Meteoric e, caso a operação seja concluída, passarão a deter aproximadamente 5,9% da companhia resultante.

Processamento será no Brasil?

Um dos pontos mais relevantes para o Brasil será o destino das etapas de maior valor agregado da cadeia.

A Lynas informou que pretende estudar oportunidades de processamento adicional de terras raras no Brasil, em linha com os objetivos brasileiros de ampliar a industrialização da cadeia mineral. Até agora, entretanto, não existe compromisso formal anunciado para a construção de uma unidade de separação no país.

Essa discussão ganhou peso com a nova política nacional para minerais críticos, que busca justamente evitar que o país se limite à extração e exportação de matéria-prima e ampliar atividades como processamento e transformação mineral.

O Projeto Caldeira também integra a Plataforma de Investimentos em Transformação Climática e Ecológica do Brasil, iniciativa destinada a aproximar projetos brasileiros de investidores nacionais e internacionais.

Governo brasileiro já sabia da negociação?

Segundo apuração da Folha de S.Paulo, o governo federal foi informado previamente sobre a negociação entre Lynas e Meteoric, com participação da Casa Civil na interlocução relacionada ao negócio.

A nova legislação brasileira criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (Cimce), vinculado à Presidência da República, com atribuições relacionadas à política para esses recursos estratégicos.

A análise brasileira, portanto, será uma das etapas a serem acompanhadas até a conclusão da transação.

Pelo cronograma divulgado pela Meteoric, os documentos detalhados da operação devem ser enviados aos acionistas em dezembro de 2026. A votação está prevista para janeiro de 2027 e, cumpridas as condições necessárias na Austrália e no Brasil, a implementação do negócio é esperada para março de 2027.