A Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) prepara um novo ciclo de investimentos de cerca de R$ 13 bilhões entre 2026 e 2031, com foco na expansão da capacidade produtiva, no desenvolvimento de novos materiais e aplicações e em tecnologia, inovação e infraestrutura. O movimento concentra-se no complexo industrial da companhia em Araxá, no Triângulo Mineiro, e ocorre em um momento em que a empresa busca ampliar a utilização do nióbio para além da siderurgia.
A dimensão do plano foi divulgada pela companhia ao Diário do Comércio. Segundo a publicação, R$ 2 bilhões já teriam sido investidos em 2026, em novas linhas e plantas industriais, além da aquisição e modernização de equipamentos.
A CBMM, entretanto, não detalhou publicamente quanto dos R$ 13 bilhões será destinado à mineração, ao beneficiamento, à pesquisa e desenvolvimento, a novas plantas ou especificamente à fabricação de produtos de maior valor agregado. A empresa também não informou, em resposta às perguntas encaminhadas pelo Minera Minas, a distribuição dos investimentos entre essas diferentes etapas.
Da siderurgia para novas aplicações
A estratégia representa uma mudança gradual no perfil do negócio. A siderurgia continua sendo o principal mercado da CBMM, mas a participação de outras aplicações vem crescendo.
De acordo com a própria companhia, 75% da receita atualmente está associada à siderurgia, enquanto 25% já vêm de novos materiais e aplicações. A empresa afirma que pretende ampliar sua presença em segmentos como mobilidade elétrica, armazenamento de energia, data centers, eletrônicos e materiais avançados.
Entre os produtos e tecnologias já desenvolvidos está o XNO®, material à base de óxido de nióbio utilizado em baterias de íons de lítio. A CBMM inaugurou em Araxá uma planta industrial para sua produção, com tecnologia da britânica Echion Technologies. A companhia também pesquisa aplicações em materiais magnéticos nanocristalinos, materiais fundidos e outros produtos destinados à indústria eletrônica e à mobilidade elétrica.
A empresa mantém ainda um Programa de Tecnologia com mais de 200 projetos, desenvolvido em parceria com universidades, centros de pesquisa e clientes internacionais. Os investimentos anuais nessa frente estão entre R$ 250 milhões e R$ 300 milhões, segundo comunicado da CBMM.
Nióbio já sai de Araxá industrializado
Apesar de a discussão sobre agregação de valor ganhar força agora, a cadeia produtiva da CBMM em Minas Gerais já vai muito além da extração do minério.
O complexo de Araxá reúne atividades de mineração, concentração mineral, refino, metalurgia, produção, embalagem e expedição. Segundo documentos do Governo de Minas, a CBMM produz no município ferronióbio, óxidos de nióbio, ligas de grau vácuo e nióbio metálico.
A companhia afirma que seu processo de produção envolve mais de 15 etapas de beneficiamento e industrialização.
O Plano Estadual de Desenvolvimento de Minas Gerais também descreve a CBMM como responsável por uma cadeia verticalizada que vai da lavra do pirocloro à produção de ligas complexas, óxido de nióbio e nióbio metálico.
Por isso, a questão colocada pelo novo ciclo de investimentos não é simplesmente se Minas Gerais vai deixar de exportar minério bruto. A pergunta é até que ponto o Estado conseguirá avançar das etapas já existentes de beneficiamento e metalurgia para produtos e tecnologias de maior complexidade.
Exportação ainda é parte central do negócio
A estratégia de diversificação também ocorre em uma empresa fortemente voltada ao mercado internacional. Em 2025, a CBMM comercializou mais de 100 mil toneladas de ferronióbio equivalente, segundo levantamento publicado pelo Brasil Mineral. A receita operacional líquida chegou a R$ 14,5 bilhões. Cerca de 95% da produção foi exportada, com a região Ásia-Pacífico respondendo por aproximadamente 64% das vendas, seguida por Europa, com 19%, e Américas, com 16%.
A companhia também fechou 2025 com R$ 6,4 bilhões de lucro líquido, EBITDA de R$ 10,2 bilhões e R$ 1,1 bilhão em Capex. Os números ajudam a dimensionar o novo plano: os R$ 13 bilhões previstos para 2026-2031 equivalem a quase 12 vezes o Capex realizado pela companhia em 2025.
O que ainda não está claro
O anúncio abre uma série de questões sobre o impacto efetivo do investimento na economia mineral de Minas Gerais. A CBMM não informou quanto dos R$ 13 bilhões será direcionado especificamente à atividade minerária, quanto ficará em beneficiamento e metalurgia e qual parcela será aplicada em pesquisa, desenvolvimento e novas aplicações.
Também não foram divulgados detalhes sobre eventual aumento da produção de minério ou de ferronióbio. Portanto, com as informações disponíveis, ainda não é possível afirmar que o plano represente principalmente uma expansão da extração. O que a empresa descreve é um conjunto de investimentos que combina capacidade produtiva, diversificação de produtos e desenvolvimento tecnológico.
Também não há, até o momento, informação pública detalhando quantos novos empregos serão criados, qual será a divisão dos investimentos entre Araxá e outras localidades ou se o plano prevê novas unidades industriais fora do complexo mineiro.
Uma cadeia ainda concentrada
A concentração territorial é outro ponto relevante. Estudo do Ministério de Minas e Energia/Serviço Geológico do Brasil sobre as cadeias produtivas dos minerais mostra que, até 2020, Araxá era o principal polo brasileiro de produção de produtos de nióbio, com a CBMM respondendo por 81,5% da produção nacional de ferronióbio registrada naquele levantamento e por 100% da produção brasileira de óxido puro, metal e liga naquele recorte.
O próprio Governo de Minas aponta que a cadeia do nióbio no Estado está concentrada em Araxá e que a CBMM é a única empresa que explora e comercializa nióbio em Minas Gerais.
A concentração também aparece na estrutura da parceria entre a companhia e a Codemig. Em 2025, o Estado renovou o acordo para exploração do nióbio de Araxá por 30 anos, com possibilidade de prorrogação por mais 15 anos. Pelo modelo, a CBMM realiza o beneficiamento, a transformação em produtos e a comercialização, enquanto a Comipa, administrada por CBMM e Codemig, realiza a extração do minério.
De matéria-prima mineral a tecnologia
A aposta da CBMM, portanto, não significa abandonar o ferronióbio - produto que continua sendo o núcleo do negócio e cuja demanda está diretamente relacionada à indústria siderúrgica.
O movimento é ampliar o mercado potencial do elemento químico. A companhia já estabeleceu uma diretoria específica de Novos Materiais e Aplicações e pesquisa usos em baterias, produtos químicos, eletrônicos, vidros, superligas, supercondutividade e aplicações aeroespaciais.
Em 2024, a CBMM destinou R$ 270 milhões à pesquisa e desenvolvimento. No mesmo ano, a receita líquida foi de R$ 13 bilhões e as vendas superaram 95 mil toneladas de ferronióbio equivalente.
O desafio do novo ciclo, portanto, está menos na capacidade de extrair e processar nióbio, uma cadeia que Araxá já domina em escala internacional, e mais em quanto valor econômico adicional poderá ser gerado a partir do material antes que ele chegue ao consumidor industrial final.
É justamente nessa etapa que entram as baterias, os materiais eletrônicos, os componentes magnéticos, os equipamentos de energia e outras aplicações de alta tecnologia.
A CBMM não divulgou, até o momento, quanto vale, em termos médios, uma tonelada de nióbio em cada uma dessas diferentes formas de comercialização. Também não há uma comparação pública da companhia que permita estabelecer quanto uma mesma quantidade de nióbio passa a valer depois de transformada em um produto tecnológico específico. Os preços variam conforme composição, pureza, aplicação e estágio da cadeia produtiva.
Assim, os R$ 13 bilhões previstos até 2031 colocam uma questão que vai além do tamanho do investimento: quanto da riqueza gerada pelo nióbio continuará concentrada na matéria-prima e nos produtos intermediários e quanto poderá permanecer em Minas Gerais na forma de tecnologia, materiais avançados e produtos industriais de maior valor agregado.





