A Companhia de Gás de Minas Gerais (Gasmig) prepara uma frente voltada ao setor mineral para ampliar o uso de gás natural e biometano em operações de mineração no estado. A estratégia faz parte do plano da companhia de expandir a infraestrutura de distribuição de gás para diferentes regiões de Minas Gerais e buscar grandes consumidores capazes de sustentar novos projetos.

A mineração aparece como um dos setores prioritários dessa expansão. A Gasmig vem se aproximando de empresas do segmento para avaliar oportunidades de substituição de combustíveis mais intensivos em carbono, especialmente o diesel, pelo gás em atividades nas quais a troca seja técnica e economicamente viável.

A iniciativa ocorre enquanto a companhia tenta ampliar a presença do gás para além das regiões já atendidas por sua rede. A Gasmig é a distribuidora exclusiva de gás canalizado em Minas Gerais e tem como controladora a Cemig, que detém 99,57% da empresa.

A estratégia é encontrar grandes consumidores que possam funcionar como âncoras para novos investimentos em infraestrutura. No caso da mineração, o tamanho da demanda energética das operações pode ajudar a justificar economicamente a implantação de redes em regiões ainda sem atendimento.

Mineração entra na estratégia de expansão

A aproximação com o setor mineral já havia sido antecipada pelo presidente da Gasmig, Gustavo De Marchi. Ao apresentar os planos de expansão da companhia, o executivo apontou a mineração como uma das frentes nas quais existe potencial para substituir combustíveis mais poluentes e ampliar o consumo de gás no estado.

Atualmente, o mercado livre de gás natural em Minas movimenta cerca de 3 milhões de metros cúbicos por dia. Segundo De Marchi, esse volume poderia mais que dobrar caso grandes consumidores industriais avancem na substituição de combustíveis em seus processos de descarbonização.

A companhia, porém, ainda terá de definir quais operações da mineração poderão receber o energético, quais empresas participarão da iniciativa e de que forma o gás chegará às minas.

Esse desenho é especialmente relevante porque muitas operações minerais estão localizadas longe da atual rede de distribuição. A viabilidade de novos projetos depende, portanto, da combinação entre demanda, distância, infraestrutura necessária e contratos de fornecimento de longo prazo.

Gás natural pode abrir caminho para o biometano

A estratégia da Gasmig combina duas fontes. O gás natural aparece como alternativa de transição para processos hoje dependentes de combustíveis mais intensivos em emissões, enquanto o biometano ganha espaço como opção renovável capaz de utilizar parte da mesma infraestrutura.

Produzido a partir da purificação do biogás obtido de resíduos orgânicos, o biometano possui características que permitem sua utilização em aplicações semelhantes às do gás natural.

Em Minas, a aposta nesse combustível ganhou escala em 2026. Em maio, a Gasmig abriu uma chamada pública para contratar até 250 mil metros cúbicos de biometano por dia, por um período de dez anos. O processo recebeu 27 propostas de 11 empresas.

O primeiro contrato foi fechado em junho com a GeoMit, joint venture formada pela japonesa Mitsui e pela brasileira Geo bio gas&carbon, em parceria com a Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA).

O projeto prevê uma planta em Uberaba com capacidade inicial de 50 mil metros cúbicos por dia de biometano. A Gasmig ficará responsável pela distribuição do combustível.

R$ 1 bilhão e 400 quilômetros de rede no Triângulo

A principal frente de expansão do biometano está no Triângulo Mineiro. O projeto envolve investimentos estimados em aproximadamente R$ 1 bilhão e a implantação de cerca de 400 quilômetros de redes isoladas, concebidas inicialmente para distribuir o combustível produzido na própria região.

A escolha do Triângulo está relacionada à concentração de atividades agroindustriais capazes de fornecer matéria-prima para a produção do biometano, especialmente os setores sucroenergético, de avicultura, suinocultura e laticínios.

O modelo também permite que o combustível seja transportado por caminhões, no chamado gasoduto virtual, antes da conclusão da infraestrutura física. Isso pode permitir o atendimento de consumidores que ainda não estejam conectados diretamente à rede.

Para a mineração, essa flexibilidade pode ser relevante justamente pela localização das operações fora dos grandes centros industriais.

Expansão depende de grandes consumidores

A entrada efetiva do gás natural e do biometano nas minas, entretanto, dependerá da construção de uma equação econômica que justifique os investimentos.

A própria estratégia de expansão da Gasmig está baseada na identificação de projetos-âncora. No Norte e no Sul de Minas, por exemplo, a companhia busca grandes consumidores capazes de sustentar economicamente a chegada de novos gasodutos.

A mineração pode exercer esse papel em algumas regiões devido à escala de consumo energético de grandes operações.

A Gasmig já está executando outros projetos de expansão. No Centro-Oeste de Minas, a companhia informou ter implantado, até o primeiro trimestre deste ano, 220 quilômetros dos 300 quilômetros previstos em uma nova rede, com expectativa de distribuir aproximadamente 238 mil metros cúbicos de gás por dia.

A companhia também planeja ampliar sua presença no Sul e desenvolver novas frentes no Norte do estado. A meta anunciada pela atual gestão é levar infraestrutura de gás a todas as regiões mineiras nos próximos cinco anos.

Projeto para mineradoras ainda precisa ganhar forma

Apesar da aproximação com o setor, ainda não foram divulgadas as mineradoras que poderão participar do projeto, o volume potencial de consumo, as operações que poderiam substituir diesel ou outros combustíveis nem o investimento necessário para levar gás às minas.

Também não está definido, nas informações públicas consultadas pelo Minera Minas, quanto do eventual fornecimento ao setor mineral seria inicialmente atendido por gás natural e quanto poderia ser substituído por biometano.