Congonhas cresceu sobre o minério. A atividade moldou sua economia, sua paisagem e parte de sua identidade. Mas, em uma cidade cercada por grandes empreendimentos minerários e industriais, uma pergunta volta a se impor sempre que uma nuvem de poeira avança em direção à área urbana: até onde uma cidade pode respirar mineração?

O debate ganhou novos contornos com o Inventário Atualizado de Emissões Atmosféricas de Congonhas, elaborado no âmbito do Projeto Atmosfera, parceria entre a Prefeitura e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O levantamento, que tem 2023 como ano-base e foi apresentado em novembro de 2025, identificou a participação das atividades industriais, do tráfego urbano, das queimadas e de fontes naturais nas emissões atmosféricas da região.

Os resultados apontam que as fontes industriais respondem por aproximadamente 70% das emissões inventariadas de Material Particulado Total (MPT), 81% do MP10 e 85% do MP2,5.

Os números ajudam a dimensionar o desafio ambiental de Congonhas, mas não representam, necessariamente, a proporção de poluição que chega aos bairros. Para compreender o impacto sobre a população, é preciso considerar também a dispersão das partículas, as condições meteorológicas e a localização das fontes emissoras.

“O resultado é uma base técnica que permite conhecer de forma mais detalhada quanto é emitido, onde essas emissões ocorrem e quais atividades apresentam maior relevância para cada poluente”, afirma João Lobo, secretário municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas de Congonhas.

Quatro empreendimentos concentram emissões

A concentração das emissões entre os grandes empreendimentos chama atenção. Segundo os dados informados à reportagem, Vale Fábrica, CSN Casa de Pedra, Gerdau Ouro Branco e Ferro+ responderam, em conjunto, por aproximadamente 90,9% das emissões industriais de material particulado total, 93% do MP10 e 92,9% do MP2,5 considerados no inventário.

Os percentuais se referem à participação das operações no conjunto das emissões industriais inventariadas, e não à concentração desses poluentes no ar respirado pelos moradores. Também não significam que as quatro operações tenham a mesma participação ou o mesmo perfil de emissão.

“A mineração se destaca principalmente pela contribuição para as emissões de material particulado, especialmente das frações mais grosseiras, associadas à movimentação e ao transporte de materiais, pilhas, vias e operações de beneficiamento”, explica João Lobo.

Já a siderurgia exige atenção especial por outro perfil de emissão. “A siderurgia também merece atenção especial, tanto por sua contribuição para as emissões de material particulado fino, especialmente MP2,5, quanto pela emissão de gases precursores envolvidos na formação do ozônio troposférico.”

A diferença é fundamental para entender o desafio de Congonhas. A discussão não se resume simplesmente a apontar quem emite mais. Trata-se de compreender que tipo de poluente é emitido, de onde ele vem, como se comporta na atmosfera e quais regiões da cidade podem sofrer maior influência.

É justamente nesse ponto que entram o monitoramento e a modelagem atmosférica. “A rede de monitoramento informa o que está sendo medido no ar, enquanto o Inventário permite identificar quanto, onde e por quais atividades os poluentes são emitidos. A modelagem atmosférica, por sua vez, permite avaliar como essas emissões se dispersam e quais áreas apresentam maior potencial de impacto”, afirma o secretário.

Poeira não vem apenas das minas

Embora a mineração seja um elemento central no cenário ambiental de Congonhas, o Inventário também aponta outra frente importante: a ressuspensão de poeira nas vias. Ela apareceu como a segunda categoria mais relevante para as emissões de material particulado.

O dado amplia a discussão sobre a qualidade do ar na cidade. Não basta controlar apenas a emissão dentro dos empreendimentos. O trânsito pesado, as vias não pavimentadas, o transporte de materiais e a poeira acumulada sobre superfícies também fazem parte da equação.

“As estratégias de melhoria da qualidade do ar precisam combinar controle das fontes industriais com ações sobre vias, transporte e ressuspensão de poeira”, afirma João Lobo.

A origem específica das partículas depositadas nas ruas, entretanto, não pode ser determinada apenas pelo inventário. A pesquisadora Taciana Toledo, professora da Escola de Engenharia da UFMG e coordenadora do grupo responsável pelo levantamento, explicou em entrevista publicada pela plataforma EFA 2030, da Fiocruz, que a identificação da composição e da origem desse material depende de análises químicas das partículas coletadas.

O relatório divulgado pela Prefeitura em novembro de 2025 já havia apontado um cenário de acúmulo de poeira superficial associado ao tráfego pesado, à influência de áreas mineradas e à ausência de rotinas sistemáticas de limpeza.

Entre as recomendações estavam o reforço das ações sobre as principais fontes emissoras e a priorização de intervenções nas vias de tráfego.

O que é emitido não é necessariamente o que chega aos bairros

Outro ponto destacado pelo secretário é que os percentuais de emissão não podem ser automaticamente convertidos em percentuais de concentração no ar respirado pela população.

Uma fonte pode emitir grandes volumes de determinado poluente, mas a concentração observada em um bairro dependerá de uma série de fatores.

“É importante esclarecer que o percentual de emissão não corresponde automaticamente ao mesmo percentual de contribuição para a concentração observada no ar em determinado bairro. A concentração depende também da localização e das características das fontes, meteorologia, relevo, distância até os receptores e processos atmosféricos”, explica João Lobo. O inventário foi integrado ao Estudo de Dispersão Atmosférica desenvolvido pelo Projeto Atmosfera.

A iniciativa utiliza, entre outras ferramentas, o modelo AERMOD, empregado na avaliação da dispersão de poluentes atmosféricos. O projeto reúne diagnóstico da rede de monitoramento, estudos meteorológicos, campanhas de campo para caracterização do material particulado, avaliações do tráfego e da ressuspensão de poeira, além de estudos de dispersão.

“Esses resultados também estão subsidiando o redimensionamento da rede de monitoramento da qualidade do ar de Congonhas e a proposição de medidas de prevenção, controle e mitigação das emissões”, afirma o secretário.

Segundo a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), os resultados poderão subsidiar políticas estaduais de gestão da qualidade do ar, especialmente as previstas no Plano de Controle de Emissões Atmosféricas de Minas Gerais (PCEA/MG).

Congonhas tem 13 estações na rede municipal de monitoramento

A preocupação com a poeira não é nova em Congonhas. Em 2019, a cidade passou a contar com uma estrutura de monitoramento contínuo da qualidade do ar, formada, naquele momento, por estações instaladas em bairros e também em áreas de empreendimentos. O sistema foi concebido para acompanhar, em tempo real, gases poluentes e material particulado e subsidiar ações de fiscalização e controle.

Hoje, segundo informações divulgadas pela Prefeitura, Congonhas conta com 13 estações de monitoramento, que acompanham parâmetros meteorológicos e de qualidade do ar e avaliam mais de 25 critérios diferentes.

Os dados são utilizados na emissão de boletins diários, na elaboração de mapas de poluentes e no acompanhamento das condições que podem favorecer episódios de poeira.

Em nota encaminhada à reportagem, a Semad informou que acompanha oito estações com analisadores automáticos e amostradores destinados à medição de diferentes poluentes. A pasta acrescentou que o estudo da UFMG complementou o monitoramento com outras estações e ferramentas.

As informações se referem a recortes de acompanhamento diferentes e não devem ser interpretadas como uma contagem única de equipamentos. A expectativa é que a integração dos dados permita melhorar a identificação de situações críticas e orientar medidas preventivas.

Nuvens de poeira levaram à paralisação de mineradoras em julho

Os dados técnicos chegam em um momento especialmente sensível para Congonhas. Em julho deste ano, uma grande nuvem de poeira cobriu parte da cidade, em um episódio associado à combinação de estiagem prolongada, ventos fortes e atividades com potencial de emissão de material particulado. A Prefeitura determinou a suspensão de atividades de empresas enquanto as condições críticas persistem.

O episódio recolocou no centro do debate uma questão que os estudos atmosféricos tentam responder com maior precisão: como antecipar, e não apenas reagir, aos momentos em que as condições meteorológicas favorecem a formação de nuvens de poeira?

Na primeira semana de setembro de 2026, a Prefeitura voltou a agir preventivamente. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Mudanças Climáticas emitiu alerta às atividades potencialmente geradoras de nuvens de poeira diante da previsão de aumento da velocidade dos ventos. Para terça-feira, dia 1º, eram esperados ventos próximos de 21 km/h, com rajadas que poderiam chegar a 32 e 34 km/h em determinados períodos.

Entre as orientações estavam a intensificação da umidificação de vias, pátios e áreas de circulação, o reforço da aplicação de supressores de poeira, a verificação dos sistemas de controle de emissões e o aumento das ações de fiscalização.

As empresas também deveriam manter equipes e equipamentos preparados para respostas imediatas e revisar protocolos para eventual redução ou paralisação temporária das operações caso as medidas de controle se mostrassem insuficientes.

O alerta mostra uma mudança importante na lógica de gestão do problema: usar dados meteorológicos e de qualidade do ar para tentar impedir que a poeira chegue à cidade. Mas também evidencia o tamanho do desafio.

A previsão de ventos fortes, temperaturas elevadas e superfícies secas pode transformar rapidamente áreas de lavra, pátios, estradas e pilhas de materiais em fontes potenciais de ressuspensão de partículas.

Congonhas precisa aprender a respirar diferente?

Para João Lobo, o Inventário não deve ser entendido como um diagnóstico definitivo e imutável. O levantamento representa uma fotografia das condições existentes em 2023 - e precisa ser atualizado à medida que mudam a produção industrial, o tráfego, a infraestrutura e as próprias tecnologias de controle.

“Este é o segundo inventário municipal de emissões. O primeiro foi realizado há mais de uma década, tendo como ano-base 2012. O mais importante agora, a partir dessa segunda base consolidada, é estabelecer um processo permanente de atualização das informações.”

A intenção é acompanhar a evolução das emissões e medir, ao longo do tempo, se as medidas adotadas estão realmente funcionando. “Isso permitirá avaliar a efetividade das medidas de controle implementadas ao longo do tempo”, afirma.

O desafio, no entanto, vai além da produção de estudos e relatórios. Congonhas precisa transformar informação em decisão — e decisão em redução concreta de impactos.

Os próprios resultados do Projeto Atmosfera apontam para uma estratégia integrada: controle das emissões da mineração, atenção às emissões da siderurgia, redução da ressuspensão de poeira nas vias e monitoramento contínuo da qualidade do ar.

“Quando esses resultados são analisados em conjunto com o diagnóstico da rede de monitoramento de 2017 a 2025, observa-se que o material particulado e o ozônio estão entre os principais desafios para a qualidade do ar em Congonhas”, resume João Lobo.

A cidade que ajudou a construir parte da história da mineração brasileira continua dependente economicamente do setor. Não se trata, portanto, de imaginar Congonhas sem mineração de um dia para o outro.

A questão que o novo Inventário coloca é outra: qual é o limite aceitável dessa convivência?

Porque desenvolvimento econômico e mineração fazem parte da história da cidade. Mas o ar que circula sobre Congonhas também é parte dela.