As exportações de minério de ferro de Minas Gerais recuaram 33,6% em setembro de 2026, na comparação com o mesmo mês do ano passado. A queda ocorre em um cenário de pressão sobre a rentabilidade das mineradoras, marcado pela redução do preço internacional do mineral, pela alta do frete marítimo e por ajustes operacionais anunciados por empresas do setor.

Em setembro, Minas Gerais exportou US$ 3,4 bilhões em mercadorias, queda de 12,2% em relação ao mesmo mês de 2025. As importações, por outro lado, avançaram 23%, alcançando US$ 2 bilhões, o maior valor para setembro desde o início da série histórica, em 1997. Com isso, o superávit da balança comercial estadual caiu 37,3%, para US$ 1,4 bilhão.

Os dados são do Comex Stat, sistema de estatísticas de comércio exterior da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Para Pablo Alencar, sócio da Valor Capital, o resultado precisa ser analisado considerando dois fatores: a quantidade de minério embarcada e o valor efetivamente recebido pelos exportadores. Segundo ele, a queda de 33,6% se refere à receita em dólares e não pode ser interpretada automaticamente como uma redução equivalente da produção.

“Sabemos que houve cortes de produção e que o frete comprimiu os preços líquidos recebidos por parte dos exportadores. Mas, sem confrontar valor FOB e tonelagem no Comex Stat, não é possível determinar quanto cada fator explica da queda”, afirma.

O valor FOB corresponde ao valor da mercadoria no ponto de embarque no Brasil, sem incluir o frete internacional. Quando a negociação considera o produto entregue na China, por exemplo, o aumento do transporte marítimo pode reduzir a parcela líquida recebida pelo exportador, caso não seja compensado no preço final.

Frete chega a mais de US$ 40 por tonelada

A pressão logística ganhou relevância diante da queda da cotação internacional do minério. Segundo Alencar, o preço do produto voltou a ficar abaixo de US$ 100 por tonelada no fim de setembro. Ao mesmo tempo, o frete marítimo na rota C3, entre Tubarão, no Espírito Santo, e Qingdao, na China, chegou a US$ 42,12 por tonelada em 14 de setembro.

Nesse cenário, considerando um minério cotado a US$ 100 por tonelada e um frete de US$ 42, o valor restante seria de aproximadamente US$ 58 por tonelada antes dos demais custos. O cálculo é ilustrativo e não representa a margem efetiva das empresas, que depende também dos custos de extração, beneficiamento, transporte interno, qualidade do minério e condições contratuais. “O transporte deixou de ser um custo secundário. Passou a ser um dos principais determinantes da competitividade”, afirma o sócio da Valor Capital.

Alencar cita ainda informações atribuídas à Bloomberg segundo as quais o valor FOB recebido por produtores brasileiros havia recuado mais de US$ 18 por tonelada, mesmo sem grandes alterações no preço internacional de referência. O dado reforça a importância de distinguir a cotação internacional do valor líquido que chega ao exportador, embora seja necessário verificar o período e a base de comparação dessa estimativa.

A pressão também aparece nas avaliações do mercado financeiro. Segundo o entrevistado, Daniel Sasson, analista do Itaú BBA, estimou que as margens das mineradoras brasileiras expostas ao frete no mercado à vista estavam próximas das mínimas em cinco anos.

Produtores com custos mais elevados ou minério de menor teor podem enfrentar dificuldades adicionais, já que o produto pode ser vendido com desconto em relação ao minério de referência. Com frete superior a US$ 40 por tonelada, determinadas operações podem perder atratividade econômica, a depender da estrutura de custos e das condições comerciais de cada companhia.

Mineradoras anunciam ajustes operacionais

A pressão sobre os custos e as margens já se refletiu em decisões operacionais de empresas do setor.

A Mineração Usiminas suspendeu as operações da planta de Samambaia em 2 de setembro, segundo Alencar, citando a combinação de preços mais baixos e frete elevado. A Itaminas também anunciou ajustes operacionais para preservar caixa.

Outros movimentos incluem a redução temporária das atividades da planta de beneficiamento a seco do complexo de Pires, da CSN Mineração, em Ouro Preto, e a concessão de férias coletivas a trabalhadores da planta de beneficiamento da Itaminas, em Sarzedo.

Para Alencar, os efeitos são diferentes entre as empresas. Mineradoras independentes e de menor porte do Quadrilátero Ferrífero, sobretudo aquelas mais expostas ao frete contratado no mercado à vista, tendem a sentir mais a compressão das margens.

Já companhias com logística integrada, contratos de transporte de longo prazo e maior escala conseguem amortecer parte da volatilidade. “A diferença, portanto, não está apenas no minério que cada empresa produz. Está também na estrutura logística que consegue sustentar”, avalia.

As decisões empresariais indicam que a pressão deixou de ser apenas financeira e passou a influenciar a operação de algumas produtoras. Ainda assim, os dados disponíveis não permitem atribuir toda a queda das exportações mineiras a uma empresa ou região específica.

China continua como principal destino

A distribuição geográfica das exportações também é relevante para entender a exposição do setor aos custos logísticos. De acordo com Alencar, entre janeiro e maio as exportações mineiras de minério de ferro para a China cresceram 2,6%. Índia, Turquia e Japão também registraram aumentos, embora sobre bases diferentes.

No Oriente Médio, os conflitos afetaram o comércio. Omã chegou a ficar dois meses sem importar o minério mineiro antes de retomar as compras, segundo o entrevistado.

Apesar dessas mudanças, a China continuou como principal destino das exportações mineiras no período analisado. A dependência do mercado asiático torna os produtores brasileiros particularmente sensíveis aos custos da longa rota marítima.

Os números de janeiro a maio, porém, não são suficientes para concluir que houve uma mudança estrutural nos destinos das vendas ou para explicar o resultado de setembro. Para isso, é necessário verificar os dados mais recentes do Comex Stat por país de destino.

Receita com minério cai 8,6% no acumulado do ano

Entre janeiro e setembro, as exportações de minério de ferro de Minas Gerais acumularam queda de 8,6% em relação ao mesmo período de 2025. No conjunto da balança comercial estadual, o superávit foi de US$ 17,4 bilhões, recuo de 11,8%.

As exportações mineiras somaram US$ 32,7 bilhões nos nove primeiros meses do ano, queda de 1,7%. As importações atingiram US$ 15,3 bilhões, alta de 12,9%, também um recorde para o período.

Para Alencar, a combinação de receita menor com minério de ferro, frete elevado e capacidade produtiva suspensa em algumas operações recomenda cautela para o último trimestre de 2026. O entrevistado avalia que o cenário aponta para um viés negativo para a receita exportadora, mas ressalta que ainda não há elementos suficientes para quantificar o resultado do ano.

A demanda chinesa, o preço internacional do minério e uma eventual normalização do frete serão variáveis importantes. Há também uma força em sentido contrário: quando as margens comprimidas levam empresas a cortar a oferta, a redução da disponibilidade do produto pode contribuir para uma recuperação dos preços.

“Meu cenário é de cautela, com viés negativo para a receita exportada, mas ainda sem elementos suficientes para quantificar a queda no fechamento do ano”, afirma.

Importações avançam, mas causas exigem análise

Enquanto as exportações perderam força, as importações mineiras cresceram 23% em setembro, para US$ 2 bilhões. Entre os grupos com maior avanço estão medicamentos e produtos farmacêuticos, com alta de 134,2%; veículos para transporte de mercadorias e usos especiais, com crescimento de 197,6%; e aeronaves, equipamentos relacionados e partes, com aumento de 116,5%.

Na avaliação de Alencar, o avanço das importações farmacêuticas pode estar relacionado à estrutura de produção e distribuição de medicamentos em Minas Gerais, que envolve a compra tanto de produtos acabados quanto de insumos. Já o crescimento das compras de veículos comerciais pode refletir investimentos produtivos ou renovação de frotas, enquanto aeronaves e equipamentos de alto valor podem provocar oscilações expressivas em um único mês.

Os dados agregados, contudo, não permitem afirmar que houve uma mudança permanente na composição das importações nem determinar a finalidade de cada compra.

O ponto de atenção, segundo o entrevistado, é a combinação entre uma receita exportadora mais fraca e importações em patamar elevado. Se o movimento persistir, a redução do superávit comercial poderá deixar de ser apenas um episódio mensal e passar a refletir uma mudança mais duradoura no comércio exterior mineiro.