O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal (PF) investigue suspeitas de interferência estrangeira nas eleições presidenciais de 2026, incluindo uma possível relação entre apoio à campanha de Flávio Bolsonaro (PL) e interesses econômicos na exploração de terras raras e minerais críticos brasileiros.
A decisão, tomada na terça-feira (27), busca esclarecer se houve financiamento estrangeiro oculto, prestação de serviços ou outras formas de apoio à candidatura derrotada no segundo turno pelo presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Uma das linhas de investigação é a possibilidade de que interesses sobre recursos minerais brasileiros tenham sido associados a eventuais contrapartidas por apoio político ou eleitoral.
A determinação não comprova que tenha ocorrido financiamento irregular nem que reservas minerais tenham sido oferecidas em troca de apoio à campanha. Essas hipóteses ainda dependem de investigação.
STF quer esclarecer possível interesse em terras raras brasileiras
Na decisão, Dino determinou que a PF verifique se existem elementos concretos capazes de relacionar eventuais tratativas de financiamento político estrangeiro a interesses econômicos em terras raras e minerais críticos brasileiros.
A investigação deverá esclarecer quem teria formulado uma eventual proposta, a quem ela teria sido dirigida, quais instrumentos teriam sido utilizados e em que consistiria a suposta contrapartida.
O ministro destacou que os recursos minerais pertencem à União e que sua exploração depende de autorização ou concessão, nos termos da legislação brasileira.
A referência às terras raras coloca a política mineral brasileira entre os temas a serem examinados pela Polícia Federal, embora ainda não exista comprovação pública de uma negociação envolvendo direitos de exploração mineral como contrapartida eleitoral.
Decisão ocorreu em ação apresentada pelo IBRAM
A determinação foi proferida no contexto da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 1178, apresentada ao STF pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM).
A ação discute questões relacionadas à soberania nacional e à aplicação, no Brasil, de decisões judiciais e leis estrangeiras.
As suspeitas eleitorais foram levadas posteriormente ao conhecimento do Supremo. Dino considerou que elas deveriam ser investigadas em procedimentos próprios, sob supervisão do tribunal.
O fato de a decisão ter ocorrido no âmbito da ação do IBRAM não significa que a entidade tenha apresentado as acusações sobre a campanha presidencial.
Além da Polícia Federal, órgãos como o Ministério de Minas e Energia (MME) e a Agência Nacional de Mineração (ANM) foram cientificados da decisão para avaliar eventuais providências dentro de suas competências.
Rockbridge Network e empresários brasileiros são citados
Segundo a decisão, a investigação deverá examinar tratativas atribuídas a representantes da Rockbridge Network, organização conservadora norte-americana, e aos empresários brasileiros Tallis Gomes e Pedro Sang.
A suspeita apresentada ao Supremo é de que contatos mantidos nos Estados Unidos poderiam ter envolvido a articulação de apoio à campanha de Flávio Bolsonaro.
Os investigadores deverão verificar se houve transferência de recursos, prestação de serviços, disponibilização de pessoal ou concessão de outras vantagens economicamente mensuráveis relacionadas à candidatura.
Também deverão identificar a natureza dos contatos, os participantes envolvidos e suas possíveis finalidades.
Tallis Gomes negou participação em arrecadação eleitoral, doações a candidatos ou partidos e intermediação de recursos nacionais ou estrangeiros para fins políticos. O empresário também afirmou não exercer função de direção ou representação na Rockbridge Network.
Flávio Bolsonaro negou ter recebido recursos eleitorais do exterior, conforme declarações divulgadas pela imprensa.
As negativas integram o contexto da investigação. Caberá à Polícia Federal reunir elementos que confirmem ou afastem as suspeitas.
Por que as terras raras brasileiras despertam interesse internacional
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos utilizados na fabricação de ímãs permanentes, motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e aplicações de defesa.
A produção e, especialmente, o processamento desses elementos ganharam importância estratégica diante dos esforços de diferentes países para reduzir a dependência de cadeias produtivas concentradas no exterior.
O Brasil possui reservas e recursos minerais com potencial para ampliar sua participação nesse mercado.
Em Minas Gerais, projetos de pesquisa e exploração de terras raras têm atraído atenção de investidores interessados na expansão da oferta de minerais críticos.
A transformação desse potencial em produção industrial depende, contudo, de investimentos, tecnologia, infraestrutura, licenciamento ambiental e capacidade de processamento.
Esse cenário explica a relevância econômica e geopolítica do tema, mas não constitui evidência de que tenha havido negociação irregular envolvendo recursos minerais durante a campanha presidencial.
Investigação também inclui publicidade digital e algoritmos
A apuração determinada pelo STF não ficará restrita às possíveis relações entre apoio político e interesses minerais.
A Polícia Federal deverá identificar os responsáveis pelo pagamento e pela contratação de publicidade eleitoral atribuída a perfis estrangeiros, rastrear a origem dos recursos e verificar eventual participação de pessoas ou entidades sediadas no Brasil.
Outra linha de investigação envolve suspeitas de manipulação deliberada de algoritmos por empresas de internet para favorecer ou prejudicar candidaturas.
Entre os elementos apresentados ao Supremo estão publicações remuneradas sobre a disputa presidencial e conteúdos relacionados a probabilidades eleitorais divulgadas pela plataforma Polymarket.
O ministro determinou que essas suspeitas sejam examinadas em procedimentos próprios, sob supervisão do STF.
Para o setor mineral, o principal desdobramento será esclarecer se existe alguma conexão comprovável entre articulações políticas internacionais e interesses econômicos sobre recursos minerais brasileiros.
Até que a investigação avance, não há comprovação de que terras raras tenham sido oferecidas como contrapartida por financiamento ou apoio eleitoral à campanha de Flávio Bolsonaro.




