A Itaminas programou férias coletivas em meio a um período de forte pressão dos custos logísticos sobre os produtores brasileiros de minério de ferro. A informação foi divulgada nesta quinta-feira (10).
A medida ocorre em um momento particularmente desafiador para produtores brasileiros mais expostos ao mercado internacional. Nas últimas semanas, a combinação entre minério de ferro próximo de US$ 100 por tonelada e forte elevação do frete marítimo entre Brasil e China reduziu a margem disponível entre o preço da commodity e o custo para levá-la ao principal mercado consumidor.
Na quinta-feira da semana passada (3), o custo do frete na rota Capesize C3, entre Brasil e Qingdao, chegou a US$ 40,72 por tonelada, segundo dados da Mysteel citados pela Reuters. No dia seguinte, o minério de ferro para outubro negociado em Cingapura estava em US$ 99,40 por tonelada. Naquele patamar, o frete sozinho equivalia a cerca de 41% do preço de referência da commodity.
Dados mais recentes da Signal Ocean mostram que a rota chegou a US$ 41,55 por tonelada em 4 de setembro, maior patamar em vários anos e cerca de 70% acima da média de setembro de 2025.
Itaminas já havia apontado frete como desafio
A pressão logística não é uma questão que surgiu agora para a Itaminas. Em junho, ao anunciar investimentos para ampliar sua produção em Sarzedo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, o CEO da companhia, Thiago Toscano, apontou a alta do frete marítimo e o câmbio entre os desafios enfrentados pela empresa neste ano.
Na ocasião, a companhia projetava investir entre R$ 150 milhões e R$ 200 milhões em 2026 para ampliar a produção e elevar o teor do minério produzido em Sarzedo. Os aportes fazem parte de um plano de investimentos de R$ 1,5 bilhão previsto para o período de 2024 a 2033.
Esse contexto também recomenda cautela na interpretação das férias coletivas: a medida, por si só, não permite concluir que a empresa tenha revisto seus investimentos ou que esteja diante de dificuldades financeiras.
Pressão já atingiu outra operação em Minas
O movimento da Itaminas acontece poucos dias depois de outra mineradora mineira adotar uma medida de ajuste operacional.
Em 2 de setembro, a Mineração Usiminas suspendeu temporariamente as atividades da planta de Samambaia, em Itatiaiuçu. A unidade responde por aproximadamente 30% a 35% da produção mineral da companhia.
A Mina Oeste e a planta de Flotação permaneceram em funcionamento. Segundo a Usiminas, a suspensão de Samambaia integra medidas para adequar os custos ao cenário de preços mais baixos do minério de ferro e frete marítimo mais elevado.
A companhia não estabeleceu prazo para retomada da planta e informou que a decisão será reavaliada de acordo com as condições de mercado.
Os dois casos são diferentes e não permitem afirmar que exista uma paralisação generalizada da mineração de ferro em Minas Gerais. Eles mostram, entretanto, que a combinação entre preço da commodity e custo logístico já está provocando respostas operacionais em empresas do setor.
Frete virou uma das principais variáveis do setor
O Minera Minas vem acompanhando esse movimento nas últimas semanas.
Frete Brasil–China dispara e já equivale a 40% do preço do minério de ferro
Em reportagem publicada pelo portal, mostramos que a escalada do frete passou a consumir uma parcela excepcionalmente elevada do preço do minério. O efeito tende a ser diferente de empresa para empresa, dependendo do custo de produção, qualidade do minério, contratos comerciais e estrutura logística.
Grandes produtoras verticalizadas ou com vantagens de escala e logística podem absorver melhor determinados ciclos de frete e preço. Operações com custos mais elevados ou maior exposição ao transporte marítimo tendem a sentir a compressão das margens mais rapidamente.
A questão também foi abordada nesta quarta-feira (10) pelo publisher do Minera Minas, Zeca T. da Costa, em sua coluna.
Os candidatos não conhecem a realidade da mineração. Mas quem deveria ter explicado?
No artigo, Zeca parte justamente do atual cenário de frete e preço do minério para discutir uma questão mais ampla: a dificuldade do setor em explicar à sociedade e aos formuladores de políticas públicas que a rentabilidade da mineração não é uniforme entre empresas nem permanece constante ao longo dos ciclos da commodity.




