A Itaminas decidiu aproveitar o momento de margens mais pressionadas no mercado de minério de ferro para antecipar investimentos e intervenções previstos em seu planejamento de longo prazo. Em entrevista exclusiva ao Minera Minas, o CEO da companhia, Thiago Toscano, explicou que a estratégia permite concentrar agora uma parada mais longa em uma de suas plantas, reduzindo a produção em um período menos favorável e evitando interrupções quando as condições de mercado melhorarem. A decisão levou a empresa a conceder férias coletivas a parte dos empregados a partir desta quinta-feira (10).

A ideia é reduzir temporariamente a produção e os custos ao mesmo tempo em que a companhia executa atualizações que, de outra forma, exigiriam uma interrupção futura da operação.

“A Itaminas aproveitou o momento ruim dos fretes marítimos para fazer investimentos em suas plantas. São investimentos previstos para acontecer ao longo dos próximos dez anos, alguns deles já amplamente divulgados, e parte deles demanda parada de planta”, afirmou.

Segundo o executivo, a companhia avaliou que antecipar essas intervenções seria mais conveniente do que realizá-las futuramente, em um cenário potencialmente mais favorável para a comercialização do minério.

“A gente entendeu que seria conveniente, neste momento, fazer a parada de uma das plantas, justamente para reduzir a produção, reduzir o custo e focar agora em uma entrega para o mercado interno. A partir dessa necessidade, fizemos uma parada um pouco mais longa, concedendo então as férias coletivas”, explicou.

Parar agora para evitar parar em um mercado melhor

A lógica adotada pela companhia é concentrar uma necessidade operacional em um período no qual a rentabilidade das exportações está mais pressionada.

Segundo Thiago, as intervenções seriam necessárias no futuro independentemente do cenário atual. A deterioração das condições de mercado levou a companhia a antecipar parte desse cronograma.

“Foi um casamento de uma necessidade que existiria no futuro, trazendo-a para o presente em razão do mercado ruim. Com isso, conseguimos não só evitar margens menores em razão do custo atual, mas também evitar que, posteriormente, em um momento em que certamente o mercado estará melhor, tenhamos de fazer essas paradas e perder margem em momentos bons”, disse.

A avaliação ajuda a colocar as férias coletivas em um contexto mais amplo do que uma simples redução temporária da atividade. Na estratégia apresentada pela empresa, a parada funciona também como instrumento de ajuste do calendário de investimentos.

Problema está mais na venda do que na capacidade de produzir

O CEO afirma que a dificuldade enfrentada neste momento não está relacionada à capacidade produtiva da Itaminas, mas às condições de comercialização do minério.

De um lado, a desaceleração do setor imobiliário chinês vem limitando a demanda por aço e, consequentemente, por minério de ferro. Do outro, a pressão sobre combustíveis e transporte marítimo aumenta o custo de colocar o produto no mercado internacional.

“Esse momento é muito mais de entrave para a venda do que de produção. O mercado chinês já vem desaquecendo há bastante tempo. O setor imobiliário demanda muito aço e, demandando menos aço, acaba demandando menos minério”, afirmou Thiago.

Segundo ele, essa combinação impede uma recuperação mais forte do preço da commodity ao mesmo tempo em que eleva uma das principais despesas da exportação.

“Por outro lado, a guerra pressiona o preço dos combustíveis e aumenta o preço do frete. O frete marítimo é um redutor da receita, então isso naturalmente comprime as margens das mineradoras. É o que está acontecendo no mercado como um todo”, disse.

A pressão sobre o frete já havia levado a Itaminas a programar férias coletivas, conforme mostrou o Minera Minas aqui.

Estrutura logística dá fôlego à Itaminas

Na avaliação do executivo, a estrutura de custos da companhia ajuda a explicar por que a Itaminas optou pelas férias coletivas associadas às intervenções na planta, enquanto outras empresas do setor já anunciaram medidas mais duras.

A mineradora possui terminal ferroviário dentro de sua operação, característica que, segundo Thiago, elimina etapas logísticas que pesam sobre os custos de outros produtores.

“Mineradoras que têm margens melhores ou estruturas de custos mais enxutas, como a Itaminas, conseguem permanecer no mercado por mais tempo. Temos um terminal ferroviário dentro da própria empresa, então não temos custo de frete rodoviário nem tarifa de embarque de terminal”, afirmou.

“Apesar de algumas mineradoras já terem anunciado demissões, a Itaminas está seguindo por um plano de férias coletivas ancorado também nesse investimento na planta. Isso nos dá uma vantagem competitiva no mercado”, acrescentou.

Para além da conjuntura, licenciamento preocupa

Ao analisar os obstáculos de prazo mais longo para a mineração brasileira, Thiago aponta o licenciamento ambiental como um dos principais desafios para novos projetos e expansões.

“Hoje, o licenciamento ambiental de uma mina que começa do zero pode demorar entre dez e 15 anos. É um capital de longo prazo, demanda muito investimento, e dinheiro no Brasil é caro. Com uma taxa de juros cada vez mais alta, você diminui a taxa de retorno e pode inviabilizar projetos”, afirmou.

Thiago também cita questões sociais entre os elementos que passaram a ocupar maior espaço no desenvolvimento de projetos minerais, mas ressalta que as demandas precisam ser incorporadas ao processo.

“Existem algumas questões sociais que entraram muito na pauta, mas entendo que são demandas justas e precisam ser atendidas dentro desses processos”, afirmou.